O PAÍS DO EMIGRANTE
O PAÍS DO QUE SERÁ
A dúvida que nos aperta
O coração, hora a hora
Tem hora marcada, certa
Na hora d'irmos embora.
Sou emigrante, e assim
Não sou de cá nem de lá
Existe dentro de mim ' /
O país-donue será?
Será que parto daqui?
Será que volto a Parada?
Ou seú em Miami
A minha última morada?
Vou partir ou vou ficar?
Faço bem ou faço mal?
Tenho saudades do mar
Saudades de Portugal
Mas minha filha não quer
Sair destoutro país
$qui se tornou mulher
E aqui que é feliz.
O drama de quem emigra
Por esta ou aquela razão
E.esta constante briga
Cá dentro do coração.
O drama do emigrante
Não é sair do país
É este esforço'incessante
Pra não quebrar aruz.
Mas a partir deste dia
Já toda a gente voltou
Com a estátua do Emigrante
Que hoje aqui se inaugurou
.
A dúvida que nos aperta
O coração hora a hora
Tem horamarcad4 certa
Na hora de irmos embora.
THE COUNTRY OF
THE COUNTRY
AN EMIGRANT OR
THAT-MAY.BE
The doubt that oppresses
Our heart each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return.
I am an emigrant, so
I belong not here or there.
Inside of me is now imPlanted
The country that-maY-be.
V/ilII leave this place?
V/ilII return to Parada?
Or will Miami be
V/ilII return, or will I stay?
My last and final address?
Am I right or am I wrong?
I long and yearn for mY blue sea,
I long and yearn for Portugal!
My daughter does not want to leave
This the other countrY
Here she became a woman
Here she found happiness.
The drama of those who emigrate
For one or another reason
Is the constant struggle
Deep within their hearts.
The drama of an emlgpnt
Is not leaviíg his cõuntry
It is the eternal struggle
Of clinging to his roots.
That beloved ship "Carái.vela"
sailing with the north wind!
He stayed in Tondela,
She went to New York.
From this day on
We have all returned
For the "Emmigrant' Christmas Feast"
We are celebrating here!
The doubt that oppresses
Our heart, each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return!
August 14,1994
Translated by Manuela da Luz Chaplin
A ASSOCIAÇÃO "MULHER MIGRANTE" ABRE ESTA TERTÚLIA A CONVERSA SOBRE AS MIGRAÇÕES E AS DIÁSPORAS PORTUGUESA E LUSÓFONAS. VAMOS FALAR DA NOSSA ASSOCIAÇÃO, DAS INICIATIVAS QUE ESTAMOS A DESENVOLVER E DA FORMA COMO PODEM COLABORAR CONNOSCO. UM CONVITE DIRIGIDO, POR IGUAL, A MULHERES E HOMENS, DE TODAS AS IDADES, EM TODAS AS LATITUDES.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Na abertura do Encontro Mª Manuela Aguiar
Uma primeira palavra de agradecimento por estarem nesta reunião a que todos somos convocados por uma grande vontade de "fazer futuro" com as forças e as dinâmicas criadas pelo movimento constante das migrações.
É este o sentido que queremos dar a uma comemoração tão especial, porque, mesmo que nos permitamos alguns momentos de nostalgia na memória de pessoas e de acontecimentos, é, sobretudo, a visão prospectiva que nos motiva.
São 20 anos da "Mulher Migrante- Associação de Estudos, Cooperação e Solidariedade".
20 anos de intenso envolvimento na vida das comunidades da Diáspora, olhando a sua situação e o seu evoluir, através da acção, das perspectivas e projectos de mulheres, que estão, ainda quando não parecem estar, na base da sua construção e das suas profundas transformações.
20 anos de estudo: de apelo constante a um encontro de mundos, não muito fáceis de aproximar - o mundo do "saber de experiência feito" e o da investigação científica - que sempre, com excelentes resultados, procurámos pôr em diálogo nos numerosos congressos, colóquios, jornadas de reflexão, em que é pródigo este passado de duas décadas.
20 anos de cooperação e solidariedade com instituições de muitas comunidades e países e com sucessivos governos, no que poderemos chamar políticas de emigração, com uma componente fundamental de género..
Em Portugal, o embrião das políticas para a igualdade e promoção activa da cidadania, através da audição das mulheres da diáspora, vem de longe, da meia década de 80, podendo nós, por isso, reclamar neste domínio um inquestionável pioneirismo, em termos europeus e universais - mais um dos assomos de vanguardismo com que o nosso País surpreende os outros, de vez em quando...
Mas foi preciso esperar pelo início do século XXI para podermos falar de políticas desenvolvidas com caracter sistemático, no cumprimento assumido, dentro e fora do País, das tarefas que o legislador constitucional impõe ao Estado para promover o aprofundamento da democracia, que passa necessariamente pela efectiva igualdade para as mulheres na vida da República, ou "res publica".
Julgo que podemos afirmar que e emergência de um novo ciclo de políticas para a igualdade, se abriu com os " Encontros para a Cidadania - a igualdade entre homens e mulheres"., realizados em diferentes regiões do mundo, entre 2004 e 2009, e agora continuados em Encontros Mundiais de caracter periódico, numa parceria entre o Governo e a "sociedade civil", conforme o previsto na inédita Resolução nº 32/2010, proposta pelo então deputado pela Emigração José Cesário.
A AEMM, cujas fundadoras haviam estado, quase todas, na organização do 1º Encontro Mundial em 1985, ligou, de uma forma explícita, querida e afirmada, o seu destino a este processo histórico - e o tê-lo conseguido até ao presente reforça a vontade de se transcender em novas iniciativas e colaborações cívicas, levadas a cabo, como sempre aconteceu, em espírito de puro voluntariado e com o impulso de fortes convicções.
As políticas de género na emigração - e a AEMM pode bem testemunha-lo enquanto parceira de governos de diferentes quadrantes político partidários - são um exemplo de continuidade, de respeito pelos princípios constitucionais, vazados em boas práticas - uma continuidade que é coisa rara em Portugal, cuja vida pública é marcada pela tentação de destruir tudo o que vem do passado, por vezes até dentro do mesmo governo (com a simples mudança do titular da pasta), num quadro de permanente instabilidade, em rupturas e recomeços que significam tremendos desperdícios de meios e energias...
É, pois, muito bom poder, em contracorrente, nesta excepção à regra, prosseguir, com o Dr José Cesário, o trabalho encetado com o Dr. António Braga, com a Dra Maria Barroso. a Presidente dos Encontros para a Cidadania, grande cidadã Portuguesa, que nos deu a honra de connosco ter estado, como inspiradora e aliada, desde o início.
20 anos, a perseguir a utopia igualitária!
Utopia ainda, mas a permitir-nos falar em certezas de progresso, nas expressões femininas da cidadania, pondo em foco realizações e projectos, nos múltiplos domínios em que interagem com os homens no espaço nas comunidades do estrangeiro. Na verdade, o todo das comunidades, os homens, como as mulheres, não estão ausentes das nossas preocupações, porque o equilíbrio que desejamos é necessariamente construído também com eles`.
Utopia ainda, mas a permitir-nos falar em certezas de progresso, nas expressões femininas da cidadania, pondo em foco realizações e projectos, nos múltiplos domínios em que interagem com os homens no espaço nas comunidades do estrangeiro. Na verdade, o todo das comunidades, os homens, como as mulheres, não estão ausentes das nossas preocupações, porque o equilíbrio que desejamos é necessariamente construído também com eles`.
É a emigração toda que está no horizonte das nossas preocupações, nesta conjuntura dramática que atravessamos, perante um êxodo desmesurado em que as mulheres, pela primeira vez autonomamente, ombreiam com os homens, e os trabalhadores menos qualificados, com o melhor da "inteligentzia" nacional...
Os movimentos migratórios actuais criaram novos estereótipos. que levam à negação da existência, ou, melhor, da coexistência de uma emigração de perfil tradicional, num eterno recomeço... Portugal é o "País das migrações sem fim", como eu não deixei de lembrar nos tempos em que nascia a AEMM e em que a "classe política", se me posso permitir esta generalização, acreditava que a adesão à CEE, com a sua promessa de desenvolvimento imparável, pusera termo a um fenómeno até então considerado como inelutável...
Vamos agora, ao longo de dois dias de diálogo, reflectir e falar sobre a emigração feminina, sobre as jovens envolvidas nestas grandes vagas migratórias e, igualmente, sobre as que têm já um longo percurso nas comunidades, questionando a relação entre género e formas de expressão na política, no associativismo, nas artes, na prática empresarial...
É ainda cedo para sabermos se os que partem deixam o País para trás, ou o levam afectivamene consigo, se são "desistentes" ou "resistentes"...
É ainda cedo para sabermos se os que partem deixam o País para trás, ou o levam afectivamene consigo, se são "desistentes" ou "resistentes"...
As mulheres terão a palavra para fazer prognósticos sobre o seu futuro no movimento para o futuro das comunidades, enquanto parte integrante da nação portuguesa em diáspora.
Maria Manuela Aguiar
Maria Manuela Aguiar
Glória de Melo Poesia
O Meu nome ainda é....
Glória de Mello , a que acrescentei agora o apelido de Poesia.
Glória de Melo Poesia.
Gosto do meu nome assim.
É que, dado que estou
associada a várias organizações e clubes, me perguntam sempre como é que quero
ser identificada : Presidente das Mulheres Migrantes USA, Presidente da
Associaçáo Real de New Jersey, Coordenadora da Proverbo, a secção Cultural e
Literária do Sport Club Portugues de Newark, Relações Publicas da TAP ?...
Poeta... Gosto de ser Poeta ou Poetisa.
Mas o que é isso de ser
Poeta ?
Recentemenre numa reunião
na Rtutgers University em Newark, N.J. USA, perguntei à audiência o que é ser poeta...Aspanhados
de surpresa, ninguem respondeu...Embora mais tarde me viessem citar Fernando
Pessoa...«O Poeta é um fingidor»...
Mas tenho para mim que
ser Poeta...É uma opção de Vida.É uma forma especial de ver,estar e entender o
Mundo. Foi a que optei para mim.
E não é por acaso que acredito
profundamente que «A Poesia é que vai salvar o Mundo »...
Mas a Poesia , não
acontece por acaso na minha vida: nasci em Lisboa Portugal, mas passei a minha
infância numa aldeia da Beira Alta, Parada de Gonta, a Aldeia dos Poetas, onde
também nasceram os meus familiares e poetas Tomaz Ribeiro, Rodrigo de Mello e
Rodrigo Emilio, e ainda Branca de Gonta Colaça e Ana Colaço. Por isso vivi
sempre num mundo de Poesia...
Depois, a minha agitada vida levou-me aos 4 cantos do
Mundo... à Suiça, onde estudei turismo, ao Japão a representar o Turismo
Português na Feira de Osaka, ao Canadá, e por fim aos Estados Unidos onde ainda
vivo e trabalho na TAP.
E nesse meu percurso, a Língua Portuguesa esteve sempre
comigo.. Do Japão comecei a enviar as «Cartas do Japão » para a revista de
Turismo Publituris, depois foram as «Cartas da América » para o Jornal «Tempo»
e o «Diabo » a pedido da Vera Lagoa, e sempre que se proporcionava, declamava
poemas da minha autoria ou dos clássicos, dado que desde os 4 anos que declamo
poesia. O primeiro foi «O Pavão Peru e Galo» , fábula de João de Deus Ramos…no
Teatro Dona Maria II em Lisboa, que dada a sua actualidade, voltei a gravar no
meu último CD... Porque ainda há muitos «vaidosos que …não cantam…Apenas
guincham…».
Mas o meu primeiro livro
«Pouca Terra Pouco Pão », foi publicado pela minha Mãe, como incentivo à minha
carreira literária. A história é simples.. Eu
vivia no Canadá, e tinha que voar
até Toronto. Mas houve uma tempestade de neve enorme e todos os voos foram
cancelados. Então, como alternativa apanhei um combóio... E como em vez de 45
minutos tinha 5 horas de trajecto...peguei num lápis e num bloco de notas...e
fui descrevendo tudo o que passava no meu consciente, subconsciente e o que via
pela janela, e as associações de imagens da minha vida... Resultou bem...E um
crítico ousou mesmo comparar esse escrito a ..Guy de Maupassant...
Amo Portugal, adoro
escrever e falar português, e gosto de escrever e declamar Poesia. Foi por isso
que editei dois CDs de Poesia, um em 203 e outro este ano, em que dou voz a
Poetas de cá e de lá, e poemas de que gosto, sem atender à conotação politica do
Poeta.
E gosto muito de ser
Mulher...E de ser Emigrante .
Há amigas minha
sofisticadas que me dizem : «Oh Glória: Por favor não diga que é Emigrante »!
Mas digo, e com muito
orgulho: Porque na Emigração conseguimos realizar sonhos, que nunca
conseguiriamso se não tivessemos emigrado.
Por exemplo , eu, que
nasci no seio duma família clássica e conservadora...jamais teria ousado entrar
em vários concursos literários e poéticos, e, como resultado, publicar um livro
em Portugal com o título «A Minha Mão Esquerda», com poemas meus, de meu pai, e
da minha filha Jessia Kansiz, ou dois «raps» ( Rap da Ferry Street e rap do
Emigrante », ou ainda os tais dois CD’s de poesia com poetas que vão de
Florbela Espanca a Rosa Dias, de Saramago a Antonio Manuel Couto Viana , ou
Rodrigo Emilio.
Infelizmente em Portugal
os poetas e escritores ainda são julgados não pelo seu valor real mas descriminados
à priori pelas suas tendências politicas.
Tento ainda nos meus
recitais, transmitir a ideia de que a Poesia também é um veículo de boa
disposição e bom humor.É que há a ideia generalizada de que a Poesia para ser
boa tem que ser algo de muito maçador, inacessível e triste .
Ora , como dizia Fernando
Vieira « A poesia ...Não é tão rara como parece...Na mais ínfima das coisas...A
Poesia acontece...».
No meu primeiro CD
apercebi-me que não tinha incluído muitos poemas de mulheres. E com o
sentimento de «mea culpa» , tentei corrigir isso no CD de poesia «Gloria de
Mello Poesia » que acabo de gravar ( que podem visitar no Youtube). E aí inclui vários poemas meus e doutras
mulheres poetisas.
Continuo a trabalhar na
TAP, « a bandeira Portuguesa no mastro mais alto »..., mas o meu hobby
principal é o de Coordenadora da Secção Cultural e Literára do Sport Club
Portugués de Newark, N.J.
Onde temos levado a cabo
projectos interessantíssimos: lançamento de livros, incentivo a que os autores
da diáspora retirem das gavetas os seus escritos, concurso literários,
exposições, feiras de livro, tertlias, encontro de poetas e escritores de cá e
os de lá, publicação anual dum livro de arte aquando da Gala que tem o
sugestivo nome de «Língua Portuguesa em Festa », altura em que vêm de Portugal artistas de renome como Simone
de Oliveira, Pedro Barroso, Manuel Freire, Victor de Sousa, Nuno Ffeist, Vitorino,
Jose Fanha, António Pinto Basto ( que regressa este ano ), Gonçalo da Câmara
Pereira, João Balula Cid e muitos mais. E o ano passado a Proverbo apoiou um
projecto pioneiro liderado por uma artista de Lisboa, Ana Sofia Paiva que levou a cabo «Oficinas de Fado » ,
durante 3 meses, e que resultou num espectáculo único coma
criação de 12 fados novos «The Ironbound Fado ». apresentado no Dia de
Portugal de 2012.
Em anexo um texto que
ganhou um prémio no Brasil «As voltas que o mundo dá ou Olhos de Carneiro
Mal-Mortos », e um ou dois outros textos de minha autoria .
Junto ainda o fado que eu criei nas
«Oficinas de Fado », e a respectiva tradução, e ainda um poema que foi
publicado em inglês no Jornal the Star Ledger : «Cá e Lá». Quando li
recentemente este poema para um publico americano , houve quem viesse ter
comigo a agradecer-me . «Muito Obrigado! Só hoje fiquei a saber o que sente um
emigrante neste país...»
E ainda um poema «naif»
«Então Adeus », que parece ser o mais
bem sucedido do ultimo CD.
Viva a Poesia ... Que
vai salvar o Mundo...
Gloria de Mello , Poesia.
Outubro de 2013
O PAÍS DO QUE SERÁ
A dúvida que nos aperta
O coração, hora a hora
Tem hora marcada, certa
Na hora d'irmos embora.
Sou emigrante, e assim
Não sou de cá nem de lá
Existe dentro de mim ' /
O país-donue será?
Será que parto daqui?
Será que volto a Parada?
Ou seú em Miami
A minha última morada?
Vou partir ou vou ficar?
Faço bem ou faço mal?
Tenho saudades do mar
Saudades de Portugal
Mas minha filha não quer
Sair destoutro país
$qui se tornou mulher
E aqui que é feliz.
O drama de quem emigra
Por esta ou aquela razão
E.esta constante briga
Cá dentro do coração.
O drama do emigrante
Não é sair do país
É este esforço'incessante
Pra não quebrar aruz.
Mas a partir deste dia
Já toda a gente voltou
Com a estátua do Emigrante
Que hoje aqui se inaugurou
.
A dúvida que nos aperta
O coração hora a hora
Tem horamarcad4 certa
Na hora de irmos embora.
THE COUNTRY OF
THE COUNTRY
AN EMIGRANT OR
THAT-MAY.BE
The doubt that oppresses
Our heart each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return.
I am an emigrant, so
I belong not here or there.
Inside of me is now imPlanted
The country that-maY-be.
V/ilII leave this place?
V/ilII return to Parada?
Or will Miami be
V/ilII return, or will I stay?
My last and final address?
Am I right or am I wrong?
I long and yearn for mY blue sea,
I long and yearn for Portugal!
My daughter does not want to leave
This the other countrY
Here she became a woman
Here she found happiness.
The drama of those who emigrate
For one or another reason
Is the constant struggle
Deep within their hearts.
The drama of an emlgpnt
Is not leaviíg his cõuntry
It is the eternal struggle
Of clinging to his roots.
That beloved ship "Carái.vela"
sailing with the north wind!
He stayed in Tondela,
She went to New York.
From this day on
We have all returned
For the "Emmigrant' Christmas Feast"
We are celebrating here!
The doubt that oppresses
Our heart, each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return!
August 14,1994
Translated by Manuela da Luz Chaplin
O PAÍS DO QUE SERÁ
A dúvida que nos aperta
O coração, hora a hora
Tem hora marcada, certa
Na hora d'irmos embora.
Sou emigrante, e assim
Não sou de cá nem de lá
Existe dentro de mim ' /
O país-donue será?
Será que parto daqui?
Será que volto a Parada?
Ou seú em Miami
A minha última morada?
Vou partir ou vou ficar?
Faço bem ou faço mal?
Tenho saudades do mar
Saudades de Portugal
Mas minha filha não quer
Sair destoutro país
$qui se tornou mulher
E aqui que é feliz.
O drama de quem emigra
Por esta ou aquela razão
E.esta constante briga
Cá dentro do coração.
O drama do emigrante
Não é sair do país
É este esforço'incessante
Pra não quebrar aruz.
Mas a partir deste dia
Já toda a gente voltou
Com a estátua do Emigrante
Que hoje aqui se inaugurou
.
A dúvida que nos aperta
O coração hora a hora
Tem horamarcad4 certa
Na hora de irmos embora.
THE COUNTRY OF
THE COUNTRY
AN EMIGRANT OR
THAT-MAY.BE
The doubt that oppresses
Our heart each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return.
I am an emigrant, so
I belong not here or there.
Inside of me is now imPlanted
The country that-maY-be.
V/ilII leave this place?
V/ilII return to Parada?
Or will Miami be
V/ilII return, or will I stay?
My last and final address?
Am I right or am I wrong?
I long and yearn for mY blue sea,
I long and yearn for Portugal!
My daughter does not want to leave
This the other countrY
Here she became a woman
Here she found happiness.
The drama of those who emigrate
For one or another reason
Is the constant struggle
Deep within their hearts.
The drama of an emlgpnt
Is not leaviíg his cõuntry
It is the eternal struggle
Of clinging to his roots.
That beloved ship "Carái.vela"
sailing with the north wind!
He stayed in Tondela,
She went to New York.
From this day on
We have all returned
For the "Emmigrant' Christmas Feast"
We are celebrating here!
The doubt that oppresses
Our heart, each and every hour,
Beforehand did set the hour,
The hour of our return!
August 14,1994
Translated by Manuela da Luz Chaplin
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Ana Costa Lopes comunicação
Do exercício pleno da transgressão à conquista da igualdade
Se me perguntarem o que tem a ver
esta minha comunicação sobre as oitocentistas portuguesas com tudo aquilo que
se está a passar aqui, neste encontro, eu responderei: tudo. Se aqui estamos,
hoje, em reunião livre, num espaço que escolhemos, e sem constrangimentos ou
proibições de qualquer espécie, tratando de todas as questões que achamos
pertinentes, sem restrições de natureza intelectual, social, política,
religiosa ou outra, às oitocentistas em primeira mão o devemos.
E devemo-lo também a todas as mulheres
e homens que, ao longo dos séculos, tiveram a coragem de questionar e negar
estereótipos, comportamentos e atitudes que limitavam o exercício da igualdade
de género, a que inelutavelmente chegam todas as sociedades evoluídas. Mas essa
é uma longa história sobre que não nos vamos debruçar aqui.
Previamente a existência destes
movimentos intelectuais pela busca da igualdade, tudo era proibido às mulheres,
à excepção da assunção total do papel de mãe e de dona de casa e de mulher
fútil. Por isso, tudo aquilo que hoje estamos aqui a fazer, era dantes objecto
de proibições diversas que se impunham de forma mais ou menos subtil, expressa
ou violenta. Pensar, escrever, discutir sobre qualquer questão masculina, aparecer
e ter visibilidade em actos públicos era, no mínimo, ridicularizado. Aliás,
todo o século XIX oscilou entre períodos de grande repressão das mulheres e
outros em que houve uma certa aceitação, por parte de alguns, da necessidade da
promoção das suas capacidades e responsabilidades sociais e culturais.
De qualquer maneira, a reflexão que
as mulheres iam fazendo sobre a desigualdade exprimiu-se primeiramente na
clandestinidade – em monólogos, em conversas, em diálogos epistolares – só
depois começando, no decurso do século, estas questões a aparecer à luz da
ribalta. As mudanças foram, por isso lentas, cheias de avanços e recuos, muitas
delas radicando nos papéis sociais que algumas mulheres nos finais do século
XVIII foram assumindo, bem diferentes dos que imaginamos ao ouvir falar dos
seus salões literários, dos outeiros, dos saraus.
Mas foi neles que se começou a fazer
a afirmação intelectual de algumas mulheres bem conhecidas e notórias. Tudo,
porém, se processava em circuitos fechados, em casas particulares, quando muito
abertas a um público selecionado. O que não impede que tenham sido essas
intelectuais a dirigir e organizar esses espaços de cultura e que neles se
tenham afirmado perante a sociedade letrada de então. É mesmo interessante
verificar que alguns dos nossos intelectuais do século XIX, como Almeida
Garrett, aí deram a conhecer as suas obras, numa espécie de lançamento ou vernissage avant la lêttre. Nesses
salões se liam e discutiam muitas obras antes de serem passadas definitivamente
a letra redonda, se deram a conhecer composições poéticas, se leram partes de
obras em gestação, se permutaram informações sobre as novas tendências
literárias. Era nos salões e outeiros que fervilharam ideias novas como as que
levaram ao movimento Romântico, entre nós trazido e divulgado pela Marquesa de
Alorna, a Stäel portuguesa, no seu célebre salão do palácio da Fronteira. No
Portugal de então, limitado e marginal designadamente em termos da sua situação
geográfica, Alorna teve um importantíssimo papel, posto em evidência por
Alexandre Herculano que justamente lhe reconheceu os méritos.[2]
Para além desta estrela de primeira
grandeza, muitas outras intelectuais, contribuíram em Portugal, principalmente
em Lisboa, para a notoriedade da intervenção das mulheres no meio intelectual
nacional. De entre elas não posso deixar de mencionar os salões de Francisca de
Paula Possolo, de Maria Kruz, da Viscondessa de Balsemão, da Condessa de Vila
Flor, de Mariana Pimentel Maldonado, de Maria Felicidade de Couto Browne, de
Olga Morais Sarmento, de Maria Amália Vaz de Carvalho. Foi neles que, ao longo
do século XIX, muitas das intelectuais da época se foram mantendo a par das
novas tendências intelectuais e literárias e até da oportunidade de ingressar
em organizações, pouco “femininas”, como a maçonaria, que cativou, por exemplo,
a Marquesa de Alorna, que pertenceu à Loja da Sociedade da Rosa e a Viscondessa
de Juromenha que foi membro da Loja da Virtude (1814). As lojas parecem ter
tido aliás um certo atractivo para algumas intelectuais progressistas: alguns
anos mais tarde, também a jornalista Antónia Pusich se filiou numa.
O contributo das intelectuais do
século XVIII e do XIX para a mudança da mentalidade do tempo, muito bloqueada,
não se limitou ao círculo mais ou menos restrito das suas relações sociais,
pois contribuiu para a divulgação do que de mais interessante, novo ou
revolucionário se produzia nos areópagos internacionais, ao traduzirem autores
de mérito, ou ao concorrerem a prémios literários destinados apenas ao sexo
masculino, como no caso de Teresa de Mello Breyner, condessa do Vimieiro, que
foi premiada com uma medalha de ouro pela Academia Real das Ciências pela sua
tragédia Ósmia. A atribuição do prémio surpreende, sendo legítimo
pensar que isso se deveu ao facto de ter concorrido com um pseudónimo
masculino.
Mencionar os nomes das mulheres que,
de maneira semelhante, contribuíram com as suas obras para essa mudança de
clima intelectual e social, seria obviamente cansativo e um trabalho
interminável. Mas não resisto a referir os da Marquesa de Alorna, os da
Viscondessa de Balsemão que deixam obra publicada e de mérito. E para
simplificar direi que a quase totalidade das intelectuais de então foram
acompanhando a evolução dos seus congéneres masculinos, quando os não
ultrapassaram na contestação do sistema social e cultural vigente.
Particularmente significativo deste
empenhamento na transformação da mentalidade é a colaboração feminina na
imprensa periódica dirigida por homens, onde encontramos a liberal Mariana
Pimental Maldonado que não só publicou poemas, em 1812, no Jornal Poetico mas
também contribuiu com composições de natureza política n’O Portuguez
Constitucional de Pato Moniz, em 1820. E em O Investigador Portuguez
dedica um poema muito especial a Manuel Fernandes Tomás (1771-1822). Não posso
igualmente deixar de mencionar a actividade política de Carlota Joaquina ou da
Marquesa de Chaves não na área da escrita, mas na da intervençao directa.
Durante o século XIX assistimos ainda
à emergência de actividades femininas pouco usuais, com a de livreiras, na
maior parte dos casos, herdadas de cônjuges falecidos. Mas também há quem
dirija gabinetes de leitura como as meninas Férin, que alugavam livros; e quem
seja impressora e tipógrafa. Numa sociedade em mudança, as mulheres iam ocupando
sorrateiramente lugares, outrora reservados a homens.
Mas a história da conquista de outros
territórios não se ficou por aqui. As mulheres não esperaram por um inexistente
passaporte, benesses ou milagres. Foram à luta, não se afligindo com as múltiplas
e bizarras teses de natureza biológica, histórica, religiosa, etc. sobre a
inferioridade ou incapacidade intelectual que as tinham condenado durante
séculos ao mero exercício de actividades domésticas e maternais, sendo no
entanto certo que tais teorias acerca das limitações intelectuais femininas,
inventadas e reinventadas, quando já gastas e sem consistência, se tinham
mostrado eficazes na prevenção das aspirações ancestrais das mulheres ao
conhecimento e à afirmação intelectual. Sabido é que a sua
intervenção e luta não eliminaram a indiferença da maioria e a sua redução à
quase total invisibilidade social e cultural bem como as críticas jocosas ou as
insinuações, inconvenientes e maldosas de homens que, em muitos casos, tudo
fizeram para lhes tirar a voz.
Não esquecer, com efeito, que ler,
escrever, pensar, criticar, tratar de matérias que pertenciam aos homens --
afinal todas à excepção da arte de escrever poesia -- era algo inaceitável e
condenável. As coutadas estavam tradicionalmente bem definidas. Mas nada disto
as assustou; com nada se espantaram e se tal aconteceu, representaram um papel
ao invés do habitual, tudo invertendo e dando publicidade com transparência e
clareza a todas as suas ideias progressistas. Não se intimidaram com nada e assumiram
os papéis de jornalistas, escritoras, directoras, redactoras, colaboradoras de
revistas, criticando livros, personalidades célebres como Castilho, assuntos
políticos e religiosos. Pior, muito pior: falaram de todas as áreas proibidas,
de tudo o que lhes apeteceu, sem peias, sem temores. Criticaram os projectos
políticos e religiosos, o sistema de ensino masculino e feminino, a educação
ministrada em casa e nos colégios, a docência, os programas, os currículos, as
cadeiras, e muito mais, opinando e apresentando novas ideias e soluções,
propondo renovações, mudanças. Apresentaram projectos novos para a mudança do
meio cultural em que mulheres e homens portugueses, mesmo nas cidades, viviam,
designadamente no que dizia respeito à formação das jovens gerações, não
esquecendo das demais.
O facto de isto tudo ser visível e,
portanto, público, e não para um número restrito de pessoas no sossego do lar
foi provocando, embora lentamente, alterações na cultura dominante de então.
Assistimos assim, pela primeira vez, na sociedade portuguesa, a uma grande
reviravolta a nível da exposição pública de ideias pouco comuns. A revista, o
jornal eram o seu campo de batalha, e as suas penas, as armas que há tanto
tempo ambicionavam usar com regularidade. O Portugal conservador, de então,
impermeável a novas ideias, a novos avanços, assistiu neste «espaço» tão
privilegiado à discussão de todas as ideias sobre diversas «emancipações», já
florescentes no estrangeiro.
Não tenhamos porém ilusões: apesar da
importância do seu esforço surpreendente, o certo é que os seus textos, as suas
ideias, as suas reivindicações, as suas lutas pela igualdade e por uma melhoria
da condição feminina não atingiam senão um limitado número de pessoas, ficando
posteriormente no silêncio, na tumba dos jornais a que poucos prestaram atenção
ou deram seguimento. As revoluções são sempre assim: a estruturação dos
fundamentos do edifício cultural leva tempo a concretizar-se. Mas as novas
ideias vão-se sedimentando no tecido social e sobre elas é que se vai
construindo o sólido edifício do futuro.
Referidas que foram as condições
gerais -- políticas e sociais -- que delimitaram a intervenção feminina na época
de oitocentos, parece-me conveniente passar a alguns exemplos mais notórios
dessa intervenção, deixando, também agora, muitas sem voz, nesse espaço de
sombras do passado em que muitas avultam, deixando de lado muitos periódicos
femininos e suas colaboradoras, e concentrando-me em algumas figuras mais
notórias de diversos períodos de Oitocentos, por serem elas que deram a tónica
das mudanças ocorridas no século. Retenho-as por as considerar paragdimáticas.
E por isso deixarei no silêncio o contributo valioso de muitas outras,
pressionada pelo tempo reservado a esta comunicação.
Começo com Catarina de Andrada, em
1836, por ter sido a primeira mulher a acumular na imprensa periódica cargos
dantes masculinos; como o de escritora, colaboradora, redactora e directora de
um periódico francês, L’Abeille (1836; 1840-1843). Pelo que já foi dito
no início desta comunicação, percebe-se a raridade e originalidade desta
situação. No entanto, ao contrário do que aconteceria mais tarde, os seus
colegas fizeram jus ao seu talento e publicitaram isso na imprensa. A esta
atitude, também ela inusitada e moralmente perigosa, reage ela de acordo com os
padrões da época, defendendo-se, como convinha a uma senhora casada. A sua
resposta, a que ela dá publicidade em vários jornais, é muito saborosa e
reveladora. Diz assim: «Senhor Redactor: Acabo de ver, no seu estimável jornal
de hoje, um artigo que diz respeito ao jornal francês, A Abelha, muito
lisongeiro, por certo; mas a menção que aí faz três vezes do meu nome
penaliza-me infinito; porque não pode agradar a uma senhora vir a público
ocupar-se dela, e menos na ausência do marido. Ainda que verdadeiramente grata
pelo interesse que V. mostra pela Abelha, peço-lhe se sirva de inserir sem
falta, na sua folha de amanhã (20 de Outubro de 1841) esta minha carta, para
fazer conhecer o sentimento que tenho da publicidade que V. quis dar ao meu
nome, sem que eu interviesse nisso de modo algum»[3]. A
divisão de espaços privado/público remetia as mulheres para a casa e
actividades afins. Por isso, a afirmação de um brilhante exercício intelectual
poderia ter consequências muito negativas para ela. A cultura e a mentalidade
da época assim o determinavam.
Este exemplo não é único neste início
de século. Outras senhoras, seguindo a moda francesa, inglesa, americana, em
curso há vários anos, não se coibiram de colaborar em periódicos anteriores ao
de Catarina de Andrada. Na sua publicação contou com Pauline de Flaugergues, de
Natalie Lajolais, de Sophie de Pannier, de Josefina, Duquesa de Abrantes, entre
outros.
Catarina inclui no seu periódico
temas com títulos como «De la condition sociale des femmes au dix-neuvième
siècle», «Destinée des femmes», «Étude de femme», «De la condition et de
l’éducation de la femme» os quais revelam, só por si, a actualidade das
temáticas sobre a condição feminina. Seria longo especificar os principais
conteúdos desenvolvidos na Abeille,
mas não deixarei de referir os estudos e análises feitos sobre o casamento e a
educação, o destino das mulheres instruídas e o sucesso profissional destas.
A actividade literária de Catarina de
Andrada não se ficou pelo que fez na sua publicação, pois colaborou, mais
tarde, na revista de Antónia Pusich. Fez além disso parte, com outras colegas,
de um grupo de trabalho de Castilho ligado à instrução, uma das temáticas
liberais mais queridas da altura. O arrojo de Catarina de Andrada para os
quadros mentais do seu tempo pode aliás ver-se por ter usado a pena para
sobreviver, designadamente através de obras de ficção, o que mesmo para o sexo
masculino, era raro então.
Catarina foi ainda docente e
directora de um conhecido colégio feminino, sendo nisso muito apreciada e
louvada. A esses encómios públicos não consta ter reagido, o que parece mostrar
que as suas actividades eram socialmente aceites. Dentre estes louvores
públicos registo o do Silvestre Pinheiro Ferreira[4] na Revista
Universal Lisbonense pelo seu trabalho, pela sua cultura, designadamente
musical. E receberia muitos outros louvores mesmo no final do século XIX, entre
os quais o do não menos conhecido D. António da Costa.
Uma outra figura paradigmática deste
século, é a sua colega e amiga Antónia Pusich, considerada a primeira
jornalista portuguesa. As suas revistas situam-se entre 1849 e 1859. Mas
colaborou noutros periódicos antes e depois destas datas. Tal como Catarina foi
muito elogiada e admirada publicamente por vários intelectuais. Era
proprietária das suas publicações periódicas, A Assembléa Litteraria, A
Beneficencia, A Cruzada, o que lhe deu total liberdade de expressão.
A sua actividade literária foi aliás enorme, pois escreveu seis dramas, quatro
comédias, um poemeto, várias produções em verso e prosa impressas avulso e em
jornais; uma biografia do pai, um texto sobre as Cortes intitulado Galeria
das Senhoras na Câmara dos Senhores Deputados,[5] entre
outros. Nesta última obra para além da defesa das pensionistas órfãs e viúvas,
assumida até às últimas consequências, teve também de lutar pelo seu bom nome
bem como das pessoas que a acompanhavam. Para cumprir o seu objectivo e de
tantas protege-se com a lei através de um Requerimento que entrega e em que usa
os seus abundantes conhecimentos jurídicos e a sua estadia diária na
Assembleia, numa constante pressão que deve ter desagradado a muitos. E para a
defesa do seu bom nome denuncia os maus tratos recebidos. Nesta publicação não
dá uma mera resposta à rejeição da participação feminina na vida política, mas
tenta evitar a ridicularização futura dos seus actos e actividades, com o
objectivo de a retirar a ela e às colegas que a acompanhavam daquelas lides
contestárias, remetendo-as de vez para as esferas tradicionalmente femininas.
Antónia Pusich não se intimida. De nada se coibe. Em vez de se remeter ao
silêncio, publica este texto de uma ousada irreverência e coragem; de uma fina,
inteligente e perspicaz análise das posições e estratégias misógenas da altura,
identificando e denunciando os deputados que agiram indignamente contra elas.
Desnuda o quotidiano da Assembleia mostrando inimagináveis comportamentos e
actos e os podres dos mais importantes governantes da Nação. O país ficou a
saber tudo isto e que ela era uma mulher perigosa que não se amedrontava com
nada.
Na luta entre as forças do progresso
e da tradição, entre a igualdade de género e a manutenção do status quo, ela toma uma posição bem
clara. Vale a pena ler o texto de Antónia Pusich na íntegra. Não se se
encontrará melhor astrolábio para a navegação entre as procelas e ventos
culturais da época.
Nos seus periódicos transgrediu diariamente.
Actuou como um homem ao tratar sem reservas de todas as questões, colocando-se
ao mesmo nível dos seu colegas jornalistas. Era extravagante para a época uma
senhora dedicar-se a escrever sobre o progresso da população e do país, sobre a
ignorância, sobre a situação dos docentes de ambos os sexos, sobre a melhoria
dos cursos do magistério masculino e pela criação do magistério feminino, sobre
as condições de vida dos professores e professoras que descreve amiúde, sobre
os seus magros salários; sobre os benefícios da instrução para ambos os sexos
através de métodos de ensino, apoiando o célebre Método de Leitura de Castilho.
Mas, se propaga nas suas revistas o Método não deixa de criticar o poeta quando
dele discordava. E não deixou de analisar as instituições escolares mostrando
destemidamente os aspectos positivos e negativos denunciando publicamente nas
suas revistas a corrupção existente. Não se poupa nem a elogios nem a críticas.
O seu exemplo e aquilo que defendeu para as portuguesas demonstra como pugnava
pela igualdade de género. Nisto não estava só. Muitas outras deram igualmente o
seu testemunho de forma muito variada, abarcando múltiplas áreas impossíveis de
focar aqui.
Como o tempo escasseia, tenho de
passar a Francisca Wood, que uns anos mais tarde, em 1868/69, teve os mesmos
cargos de Antónia Pusich na imprensa periódica feminina, retomando de forma
ainda mais destemida e actualizada todas as questões tratadas por Pusich,
designadamente as do género que aborda de forma muito corajosa, pondo-nos em
contacto com teorias concretas e diferentes. Pretendia ela e as colaboradoras
das suas revistas que as portuguesas enveredassem pelo caminho da liberdade e
deixassem de vez preconceitos estúpidos que as inferiorizavam e impediam de
progredir intelectualmente. Faz o diagnóstico da sociedade portuguesa e chega a
resultados surpreendentes e alarmantes. Valoriza a inteligência feminina e
defende a ilustração de todas as classes sem distinção de género contra uma
situação de menoridade e de injustiça a que estavam sujeitas. Provoca a elite
intelectual feminina a colaborar com ela, ou seja, a partilhar ideias e actos
progressistas. Mas nem todas as intelectuais do tempo a acompanham. Maria
Amália Vaz de Carvalho e outras recusam colaborar nas suas revistas porque as
suas propostas eram «masculinas», ao que ela responde com as suas colaboradoras
falando dos impedimentos na teoria e na prática para o progresso intelectual
feminino. Wood critica a educação doméstica feminina, a futilidade, o ócio e
reflecte sobre a instrução e sobre as matérias por elas aprendidas, sugerindo
outras. E se se ocupa do ensino, não esquece as gerações mais velhas a respeito
das quais apresenta algumas propostas, defendendo sempre, em polémica com
alguns intelectuais, a igualdade de género.
Com Guiomar Torrezão, colaboradora
dos periódicos de Francisca Wood e de muitos outros, chegamos a 1870. Torrezão
foi das escritoras que mais interveio culturalmente no período de 1870 a 1890,
durante o qual se regressou a um conservadorismo extremo, dos mais difíceis da
história das mulheres e da sua luta, sob a égide da tão celebrada Geração de
70, de Eça de Queirós, de Ramalho Ortigão, de Oliveira Martins, de Antero de
Quental, a qual afinal foi repressora dos ideais progeressistas femininos. No
que aliás foi acompanhada por Maria Amália Vaz de Carvalho uma das vozes mais
consistentes do conservadorismo.
Guiomar Torrezão, ao contrário, fez
jus aos valores do progresso defendidos pelas suas antecessoras publicando o Almanach
das Senhoras, de que foi proprietária, directora e editora. Fá-lo chegar a
todo o país, à Madeira, Açores, Cabo Verde, Angola, ao Brasil e a Espanha. A
propósito desta publicação, não resisto a referir o que Oliveira Martins
escreve certamente em clara sintonia com o espírito da época e da sua geração a
respeito do que devem ser as actividades das mulheres do seu tempo: «de um modo
sumário [...] o seu destino comum – salvo as exepções privilegiadas, como V.
Ex.ª -- é cozinharem bem a panela a seus maridos, saberem lavar filhos e
remendar-lhes os calções.»[6]
Esta rejeição, por parte dos escritores
mais conhecidos, das iniciativas e posições das intelectuais do tempo mostra
quão corajosas foram todas aquelas que ousaram ir contra esta hegemonia,
apoiada numa escassa minoria de gente progressista. Para a maioria dos
escritores, a agulha, a panela e todos os objectos domésticos seriam os únicos
que poderiam ser manuseados com propriedade pelas mulheres. A pena, a política,
a reforma da sociedade eram propriedade masculina. Esta demarcação notória e
forte dos campos interrompeu, aliás, o surto da imprensa feminina durante algum
tempo.
Mas isso não atemorizou Guiomar. Com
Ramalho Ortigão teve uma célebre polémica que a levaria a escrever um manifesto
de igualdade intelectual. Como Pusich num discurso mordaz e displicente ridiculariza
o seu adversário e destrói-o com as mesmas armas, as literárias. Afirma-se
cultural e sexualmente e retoma argumentos já utilizados por outras suas
colegas. E Camilo vem em sua defesa bem como das literatas do seu tempo.
As actividades de Torrezão não deixam
de ser notórias tendo dirigido periódicos como O Mundo Elegante, A
Estação de Paris, A Cronica, onde encontramos muitos artigos sobre
as mulheres de natureza conservadora ou progressista, sobre a instrução e a
educação, ou ainda correspondência a com Alexandre Herculano sobre a
emancipação.
Ficou quase tudo por dizer nesta
comunicação, que não passou de uma breve referência a milhares de acções,
reflexões, lutas, progressos e retrocessos que teceram a história da emergência
das mulheres para a esfera pública durante o século XIX, em que se fundaram e
alicerçaram as conquistas que o século XX consagrou. Por isso se pode dizer que
foi a luta e as ideias das intelectuais de oitocentos que prepararam a nova
vaga de contestação desenvolvida e liderada pelas Republicanas. Foram estas
pré-feministas que prepararam o terreno, que abriram quase todos os caminhos da
emancipação num invulgar exercício de equilíbrio em frágil corda bamba. Foram
elas que, pela reivindicação insistente nos temas da igualdade, de uma educação
e instrução diferentes, de uma consciencialização política activa que deram
visibilidade aos grandes temas que serão posteriormente retomados, com novos
argumentos e enquadramentos, designadamente sociais e políticos, para que a
igualdade de género fizesse caminho na cultura e na concepção do poder e que
tudo o que foi por elas escrito servisse de fermento para o que aconteceu ao
nivel legislativo e prático já no último quartel do século passado.
Foram as oitocentistas que passaram o
testemunho às Republicanas. As ideias e posicionamentos destas não apareceram
inesperadamente em 1910 ou nos anos subsequentes. Porque mais conhecidas, delas
fazemos alarde. Vangloriamo-nos da maturidade do seu pensamento e acção mas
raramente nos lembramos que o trabalho de sapa dos alicerces culturais foi
feito pelas pré-feministas de Oitocentos, as quais, com muito suor e lágrimas
venceram etapas instransponíveis no Portugal conservador e preconceituoso de
então. É graças a elas que também estamos aqui hoje. Cada vez que recordamos os
seus feitos estamos a agradecer-lhes a determinação de cada um dos seus actos.
A História é isto mesmo: uma ligação entre séculos, entre tempos, entre
mentalidades que se vão mudando num determinado sentido, nem sempre linear, mas
tomando em conta os avanços precedentes. Honra seja feita às percursoras. Honra
seja feita às mulheres que aqui estão nesta sala e a todos os seus empreendimentos
de diversa ordem por esse mundo fora.
[1]
Universidade Católica Portuguesa
[2]
Alexandre Herculano, «D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna», O Panorama, 2.ª série, vol.3,
156(Dez)1844, p. 404.
[3]
Catarina de Andrada, «Correspondência extraída de O Correio de Lisboa», O
Correio das Damas, 4 (22)1841, p. 175.
[4]
Cf. Silvestre Pinheiro-Ferreira, «Educação de meninas», Revista Universal Lisbonense, 1.ª série, 11(Dez.) 1842, p. 137.
[5]
Ana Maria Costa Lopes, «A intervenção política e social de Antónia Pusich», in Imagens da mulher na imprensa feminina de
Oitocentos. Percursos de modernidade, cap. 7, Lisboa, Quimera, 2005, p.
260-268; Antónia Gertrudes Pusich, Galeria
das senhoras na Câmara dos senhores deputados ou as minhas observações, Lisboa,
Tip. De Borges, 1848. Foi editado na íntegra por Ana Maria Costa Lopes,
«Intervenção de uma prestigiada oitocentista na Câmara dos Deputados», Povos e Culturas, 8, CEPCEP,
Universidade Católica, 2003, p. 207-228.
[6]
Oliveira Martins, «Ex.ma Senhora e minha ilustre colega», Almanach das Senhoras para 1885, p. 216.
Daniela Amaral Moreira entrevista a Cristina Maia Caetano
Entrevista a CRISTINA MAYA
CAETANO
1- A construção das caravelas, para serem
apresentadas no serão cultural realizado na Escola Básica e Secundária Domingos
Capela , sobre o tema "Camões" e a sua obra emblemática «Os
Lusíadas», obedeceu a um projeto com base numa memória descritiva. Poderemos
saber se algumas das suas obras aqui apresentadas obedeceram a esta dinâmica ou
nasceram de forma espontânea?
As
minhas obras expostas nesta II Bienal de Mulheres em Espinho, tiveram o seu
nascimento em poemas. Primeiro escrevi-os e depois a pintura a óleo foi
crescendo, acompanhando os versos. Por vezes senti a necessidade de adaptar as
tonalidades das cores à escrita, como se o pincel tivessse vida própria e
criasse à sua maneira.
O
quadro “Florais Outonais” pretende ser uma homenagem ao outono, demonstrando
que esta estação onde as folhas caiem e perdem cor, tem uma dinâmica, voz,
beleza e cor própria. “Coloridas Folhas”, é um quadro que representa diversas
folhas de tamanhos e feitios distintos, símbolo das variadas fases da vida de
cada ser humano.
2- O que a inspira ou inspirou nos países
onde esteve como emigrante (pessoas, locais)?
Nascida
em Luanda, Angola, com os meus tenros seis meses, os meus olhos não chegaram a
contemplar a minha terra natal. Apenas me recordo de Lourenço Marques (atual
Maputo), Moçambique, país onde foi batizada e vivi feliz. Ainda hoje,
inspiram-me as corridas e as aventuras de triciclo em que insistia em chocar
contra as árvores e esmurrar os joelhos. As bonecas, que adorava vestir e
despir, ao mesmo tempo em que da varanda espreitava quem passava. O kukuana o
homem velho do saco, onde colocava as crianças que não se portavam bem e as
levava com ele. A luz do dia, as cores da terra, os cheiros, a alegria das
pessoas, o sol grande e vermelho. A praia com areias finas e brancas e a água
do mar quente, onde caminhava com a água a bater-me nos tornozelos. As comidas,
como o frango à cafrial, o chocol (especie de moussse de chocolate em lata), as
gomas e os chocolates sul-africanos. O ringue de patinagem artistica, onde
sonhava aprender a patinar e a dançar com tutus vestidos. O drive in onde com a minha família
assistia ao ar livre, dentro do carro aos filmes do Trinitá, bebendo coca-cola
e trincando pipocas. As matinés, a leveza das roupas e o pé descalço. “O
casamento dos macacos”, apelidado ao tempo de sol, interrompido por uma
repentina queda de chuva, onde imaginava uma idílica e pormenorizada cerimónia.
A fruta sumarenta, como a manga, papaia, mamão e diversos outros tropicais
sabores. O Natal, com uma grande e enfeitada árvore de Natal coberta de grandes
presentes. As passagens de ano com pessoas nas varandas e carros a apitarem a
saudarem o ano novo.
Tudo
isto, eu transporto na minha arte e nos meus escritos (como na Fadinha Lótus,
simbolo de magia da minha infância e das bonecas que tinha. O seu lago de
nascimento com águas quentes e mansas – O mar de Moçambique e os seus amigos,
animais, como tantos que lá havia). Bem como as cores que uso e materiais que
me transportam a Moçambique com todo o seu exotismo, e tantas vezes espelhado
nos saris de indianas que encontrava
na rua, recriando-me para outra cultura, sentir, cheiro e comida picante.
3 - Até que ponto poderíamos dizer que há, no
país onde esteve, uma arte no feminino em oposição a uma arte no masculino? Ou
há uma relação entre género e expressão artística?
Considero que em Moçambique, a
predominância do masculino é marcante. O tribalismo, a tradição, o colonialismo
e guerra colonial, independência, contacto com conceitos e arte ocidentais,
reconstruçao de um país, a procura das raízes, são todos eles fatores
importantes numa maior compreensão da cultura moçambicana e transparência de
todos os seus componentes. Na arte plástica destacam-se vários nomes como:
Pancho Guedes; Azymir Chiluteque
com as suas criações que contribuíam para a narrativa da história de Moçambique;
Naguibe com destaque para o Mural em homenagem a Samora
Machel junto com a sua equipe. Jorge Dias,
criador de novas formas de relações culturais e o inesquecivel Mestre
Malangatana Valente Ngwenya que levou o nome
de Moçambique ao mundo, tendo sido embaixador das artes plásticas, educador,
impulsionador, divulgador e criador de oportunidades para a arte e artistas
moçambicanos. No feminino, as artistas
Fátima Fernandes e a falecida Bertina Lopes com vários prémios internacionais
de pintura, são exemplos de sucesso e de integração vivenciais em outros
países, respetivamente Portugal e Itália, expressando e alargando a
moçambicanidade feminista no mundo.
4- Para uma artista plástica portuguesa em
comunidade estrangeira, como absorveu a nova cultura do país onde estudou ou
viveu e como é que se interligou com a sua cultura de origem? E para uma
artista plástica estrangeira em comunidade portuguesa?
A
cultura daquele país africano, na altura solo Português, pulsava dentro de mim,
quer no meu respirar, batimento cardiaco, ou na génese das minhas células. Eu
estava em África e África estava em mim. Fugida da guerra colonial, deixei para
trás família e a terra que acreditava ser minha. Em Cerejo, aldeia do meu pai,
para onde fui residir, deparei-me com valores e costumes culturais distintos
aos que estava acostumada e por isso não os reconhecia. Para mim, a comunidade estrangeira a que me
tive de adaptar foi a portuguesa. Com o tempo fui tentando habituar-me com a frequência
da escola, ingresso nos escuteiros, faculdade, trabalho e situações próprias da
vida, que me levaram a aprender novos costumes, criar defesas e uma compreensão
própria ao que me rodeava. Muitos anos mais tarde, regressada a Moçambique, fiz
a minha própria catarse: o encontro comigo e com o meu passado. E aí sim, por
fim, com raivas desaparecidas, aceitei em plenitude a portuguesa que havia em
mim.
Tal
como tudo, penso que para uma artista plástica estrangeira em comunidade
portuguesa, há que ponderar alguns aspetos. A personalidade da pessoa em causa,
o país donde é originária e a comunidade onde se inseria. Também é importante
se entrou em Portugal, sozinha ou acompanhada de amigos ou familiares,
acentuando o fator solidão ou de comunicação. Se constituiu família já em
Portugal, permitindo-lhe um contacto e convívio mais próximo com a cultura
portuguesa, a integração poderá tornar-se mais acessível. Seja qual for o caso,
as vivências, técnicas e gostos pessoais adquiridos noutras fronteiras, sem
dúvida poderão e devem enriquecer as artes. Conjugadas com vivências e
interações em Portugal, a evolução resultante é salutar e propício para o
desenvolvimento das artes.
5- Quais as barreiras que encontrou enquanto
mulher- preconceito e enquanto criativa - liberdade?
Uma
visão diferente da vida e um sonho idealista de a viver: Fazer o que gostava.
Deixando para trás emprego e padrões convencionais de vida, experimentei a
sensação de muros erguidos, perconceitos e de medos originadados pela
incompreensão de uma profissão diferente e de um futuro incerto. Questionando
qual o melhor caminho a traçar, a arte gritava dentro de mim. Primeiro em forma
de crónicas, escrita científica, depois nos contos infantis, na pintura a óleo,
na poesia, nos romances, na ilustração, no teatro, cinema e no contar de histórias.
E foi aí que percebi: a arte é sem limites! Senti-me livre e o meu espirito
sossegou.
6- Pensando no nosso percurso, será
que teríamos maior êxito ou maiores oportunidades
se estivéssemos nos respetivos países de origem
Não.
Acredito que tudo acontece como tem de ser. Nós não somos o passado, mas somos
o que somos graças ao passado que tivemos. O passado não é importante, apenas o
que fazemos com ele. As dificuldades que travamos, as batalhas que perdemos ou
ganhamos, ensinam-nos algo importante para o nosso crescimento evolutivo, e
para fortelecidos, encararmos novos desafios.
Acredito que as vivências que tive não seriam as mesmas se tudo tivesse
sido de outra forma. Hoje, certamente não seria a mesma pessoa. Provavelmente
até nem seria artista...
7- O que ganharam, neste particular domínio,
as mulheres migrantes na sua itinerância por vários universos culturais?
Aprendizagens
culturais e formas diferentes de sensibilidade, ver, ouvir e sentir a vida.
Contagiarem-se a si mesmas e contagiarem outros povos sendo veículos portadores
de transmissão de novos conhecimentos. Crescerem como seres humanos, olhar de
dentro para fora e seguir em frente. Retirar pedras do caminho e construir
pontes para comunicar com todos os povos da terra.
8- Que importância acha que devemos atribuir
às Artes como formas de intervenção e afirmação cívica e humana?
A
importância de uma vida. A importância de todas as vidas. Nasce no ser humano.
É criado no âmago de cada um. É puro, autêntico, natural. É a voz do sentimento
no seu expoente máximo. Não o calem, nem o mutilem! Antes ouçam-no e deêm voz
às populações para na arte se expressarem e intervirem na sociedade, observando
valores humanos e comportamentos cívicos. Poderão perceber melhor o pulsar de
culturas e melhor transmitir a história da civilização. Reinventarem-se a si
mesmos, e contribuirem para um tão precisado colorir do mundo.
Daniela Amaral Moreira, aluna da escola
Domingos Capela, AEMGA , Espinho, setembro de 2013
CONCLUSÕES DO ENCONTRO Relatora Arcelina Santiago
Chegamos
ao fim do Encontro Mundial de Mulheres Migrantes, sob o tema “Expressões
Femininas da Cidadania”, com o alto patrocínio do Secretário das Comunidades
Portuguesas, cujas palavras inspiradoras foram incentivo para a criação de
laços e pontes nas e entre as comunidades para que os projetos inovadores
cresçam e se concretizem! É tempo agora de apresentar umas breves notas finais deste
encontro tão intenso. Intenso pela abrangência dos conteúdos, versando múltiplas
facetas femininas da cidadania, intenso pela pluralidade de participantes, nacionais
e internacionais, representantes de várias comunidades portuguesas espalhadas
pelo Mundo, bem como de países de expressão portuguesa. Todos foram convocados
para a reflexão e diálogo aberto e produtivo. Foi esta a melhor maneira de
celebrar os 20 anos da “Mulher Migrante – Associação de Estudos, Cooperação e
Solidariedade”, duas décadas de atenção às migrações
portuguesas, especialmente no feminino, e o reconhecimento e incentivo à
capacidade de afirmação e influência das mulheres nos destinos que partilham
com os homens nas comunidades portuguesas do estrangeiro e do papel destas na
divulgação da identidade e da cultura portuguesa.
No tocante à dimensão das mulheres na política foram
confrontadas experiências de outros países. Os testemunhos marcantes de
mulheres que venceram na carreira política nos países de destino,
apresentaram-se como mulheres de referencia, dado que, nesta área, tal como no
mundo empresarial e nos órgãos de decisão é ainda muito pouco significativa a
sua presença. Destacou-se a importância do trabalho de voluntariado como
alavanca para a participação feminina na política.
Esteve
em debate a questão da paridade e alguns efeitos positivos da aplicação das
quotas embora as restrições e incumprimentos na sua aplicação mereçam uma maior
reflexão, após ter passado o período de aplicação experimental. As mudanças que
se têm operado na emigração onde há mais igualdade entre géneros se bem que
mais visível na área cultural e cívica podem ser indícios para mudanças mais
significativas pois esta poderá ser a alavanca para as outras dimensões.
O papel da sociedade civil, através das
associações revelaram-se verdadeiras embaixadas capazes de representar o todo
na origem e no destino. Ouvimos
testemunhos do seu papel junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo
mundo, com dimensões abrangentes: na transmissão da imagem de Portugal; de solidariedade;
na vanguarda da defesa dos direitos dos cidadãos migrantes; na integração em
novos contextos; no combate ao isolamento num país diferente; na afirmação da
língua e cultura portuguesa e, mais recentemente, no auxílio socioeconómico
face à crise severa e insegurança extrema em países como a Venezuela. De
destacar ainda os testemunhos sobre a interligação com outros movimentos do
país de acolhimento na luta por causas comuns. Nas atividades das associações. Outro
aspeto da dinâmica das associações mostrou-se patente na recente criação das
universidades seniores nas comunidades, designadas por ASAS (Academia sénior de
artes e saberes).
Foram apresentadas novas formas de
associativismo – as casas da cidadania, configuradas para o novo rosto do fluxo
migratório: mais jovem, com a presença de mais mulheres, com maior nível de
formação, leque diversificado de interesses culturais e profissionais. Também
foi destacado o papel das associações e do Observatório dos Lusodescendentes em
Portugal com uma missão inovadora e muito abrangente.
Sobre
o empreendedorismo, construído essencialmente no masculino, assiste-se a um
novo paradigma presente na mensagem forte e positiva do empreendedorismo
cultural onde as mulheres das artes se reinventam, recriam e lutam por causas
nobres. Testemunhos diversos
mostraram-nos a capacidade das mulheres no mundo empresarial e a necessidade de
aplicação de estratégias de coaching
e mentoring para garantir a entrada
no mundo empresarial com sucesso. O exemplo das mulheres guineenses como forma
de combater a crise e assegurar o apoio familiar foi inspirador desse
empreendedorismo no feminino.
Outra dimensão, remeteu-nos para o
Conhecimento da diversidade do fenómeno migratório português conduzindo-nos a
uma melhor compreensão. Transvasar as fronteiras do mundo académico e fazê-la
chegar a um público mais abrangente foi o objetivo do painel “Migrações e
Migrantes”, através de vários discursos (religioso, associativo, de representação, literário),
onde oradores especialistas nos apresentaram de forma complementar as várias
vertentes do poliedro migratório. Hibridação do Feminismo e o Estudo da
Migração é a marca da nova corrente
do estudo do género e, neste encontro, a combinação dos termos “mulher” e
“migrante” é exemplo disso mesmo, ou seja, reflexo do hibridismo académico e da
interdisciplinaridade na investigação.
A Exposição coletiva de pintura - "Mulheres d'Artes
em Movimento" apresentou-se através de trabalhos criativos (pintura e
poesia) e pelo diálogo entre artistas e convidados. Este momento, juntamente
com e os painéis sobre Artes e Letras foram pontos altos
deste Encontro, onde estas formas tão intensas de expressão de
cidadania no feminino foram apresentadas,
quer através das obras expostas, quer estudos académicos quer ainda por histórias de vida. As vivências, aprendizagens culturais e interações dos
países de origem e de destino resultaram propícios para o desenvolvimento das
artes e das letras. Foi destacado o contributo das mulheres intelectuais para
as mudanças do meio cultural e na luta pela igualdade. Transportou-se para
ribalta trajetórias identitárias de mulheres que, até agora, estiveram nas
margens, caso de Ana Fontes, Regina Pacini e Maria Inácia Cotta Menezes. Também
o papel da língua, fator de identidade cultural, a sua evolução constante, os
vários domínios, tipos de texto e discurso foram lavo de destaque. Foi relevado
a importância de conhecer a perceção que os alunos lusodescendentes do ensino
superior, em França têm da sua língua.
Seguiu-se a apresentação do projeto desenvolvido pela Rhode Island College em
parceria com a Fundação Pro Dignitate – Fundação dos Direitos Humanos. Nestes
painéis as comunicações desenvolveram-se a partir de expressões simbólicas e
metafóricas, de pontes que invadem o nosso imaginário e que nos levam tão longe
e que a artes (música, pintura) e as letras tão bem traduzem. Como disse o
poeta Adolpho Rossé, citado pela pintora Ana Maria: “ Não é a cotovia que canta
é o pássaro cor do infinito!”.
No último painel, Narrativas de vida, imagens
e imaginários, desfilaram trajetórias de vida, através de estudos académicos
onde imagens e estereótipos emergiram do filme Gaiola Dourada, as questões das
mulheres marroquinas em Espanha, o estudo das mulheres portuguesas empreendedoras
em Andorra e ainda um testemunho de vida na primeira pessoa. Todo este conjunto
de intervenções ajudaram-nos a conhecer a realidade das problemáticas das
migrações onde as narrativas de vida surgem enquanto poder e as novas
epistemologias como formas de construir o conhecimento.
Mas o mais importante de tudo, citando as palavras sempre
inspiradoras da Drª Manuela Aguiar “ É tempo de traçar as grandes linhas do
movimento, da marcha coletiva para o futuro”. Começaremos por indicar algumas
das ideias e sugestões apresentadas ao longo do Encontro, a saber:
- Solicitar junto
da Assembleia da República a revisão da Lei da paridade;
- Suscitar a todos os partido políticos a elaboração de
estratégias de seleção e recrutamento que visem uma melhor integração das
mulheres na política, nomeadamente, a sua colocação nas listas, em lugares
elegíveis;
- Estimular a criação de associações – casa da cultura;
- Maior apoio estatal ao ensino da língua portuguesa e
cultura da lusofonia nas comunidades
portuguesas espalhadas pelo mundo e aos lusodescendentes em Portugal;
-Promoção da imagem de Portugal com o incentivo de novas
formas de empreendedorismo no feminino;
- Promoção no
estrangeiro da imagem da forma de ser português como uma forma muito
própria de estar na vida, através da
educação formal e sensibilização;
- Incentivo às
novas formas de associativismo para dar resposta ao novo fluxo migratório com
novos contornos;
- Integração de
membros da comunidade de destino nas associações como forma de interligação;
- Reconhecimento e valorização das novas associações de
acordo com a sua relevância. Atribuição de verbas resultantes das receitas
consulares para desenvolvimento de estratégias e apoios , mesmo de caráter
social;
- Apoio às confederações de associações de cada país para
que possam reunir e trocar experiências;
- Maior apoio às associações para apoio em diversos domínios
pelo facto de ter havido redefinição da rede consular e redução do número de
funcionários;
- Solicitar atenção especial às comunidades portuguesas
que vivem uma profunda crise económica e graves problemas de insegurança, caso
da Venezuela;
- Promoção e incentivo a estudos sobre empreendedorismo
da diáspora, no feminino e do universo dos lusodescendentes para melhor
conhecimento destas realidades;
- Desenvolvimento de parcerias através de estratégias de coaching e mentoring para promoção do
sucesso empresarial das mulheres;
- Reforçar o apoio ao Observatório da Emigração e dos
Lusodescendentes e agilizar as redes de contacto nas e entre as comunidades;
- Maior incentivo
e divulgação das expressões de cidadania através das artes e letras das
mulheres da diáspora;
- Apelar à
subscrição da Convenção 97, dos Direitos dos cidadãos nos países de destino,
aos países que ainda não o fizeram, caso dos países africanos.
De significado relevante neste encontro, e
no ano da celebração do 20º aniversário da Associação, foi o tempo de memórias,
presente na homenagem a duas mulheres notáveis, escritoras, vanguardistas do
seu tempo e lutadoras dos direitos das mulheres na sociedade portuguesa, ambas
condenadas ao exílio, ambas referências do “feminino” no espaço da cultura: Maria Lamas, que
festejaria este ano 120 anos se fosse viva e Maria Archer a jornalista,
escritora e tradutora, felizmente, já mais conhecida entre os mais jovens. Também a Associação,
prestou, na celebração do seu 20º aniversário, a justa homenagem a Fernanda Ramos, cofundadora
da Associação Mulher Migrante, através de testemunhos sentidos e plenos de
reconhecimento por membros diretivos da Associação, familiares e amigos,
reveladores da imensa grandeza desta mulher notável, empreendedora, verdadeira matriarca,“moderna em seus atos, pensamentos e conselhos, mas
também incrivelmente conservadora em seus valores, conceitos e regras” segundo
palavras de seu neto.
Por
fim, poderemos concluir, que este encontro foi cenário para se festejar, apresentar,
refletir, questionar as muitas facetas femininas da cidadania. Demos mais um
passo na longa caminhada que temos pela frente, no mundo da diáspora e, em
particular, da diáspora no feminino. Como disse o poeta,” o caminho faz-se
caminhando “ e nesta caminhada da Associação, encetada por mulheres e homens de
valores, lutadores de causas e desejosos de um mundo melhor, estaremos todos
mais confiantes no presente, mesmo apesar dos constrangimentos, mas já com os
olhos postos no futuro.
Lisboa, 25 de outubro 2013
Arcelina Santiago
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