sexta-feira, 20 de novembro de 2015

AS MULHERES no CCP Conselheira HELENA RODRIGUES (+Africa do Sul)

 
1º--A realidade atual das comunidades Portuguesa é que cada vez mais as mulheres estão envolvidas na maioria das atividades empresariais, cívicas, sociais e de solidariedade Social e na Africa do Sul existe uma organização Feminina a Liga da Mulher Portuguesa –com o grande apoio da Mulher Migrante- com filiais nas Grandes Cidades neste Pais, tem elevado social e culturalmente as nossas mulheres e agora melhor com a formação da Universidade Sénior Boa Esperança , que tenho colaborado muito, pois a sua Fundadora é minha Mãe Manuela Rosa. Os objectivos da Lei da Paridade foram cumpridos, pois sem essa Lei não haveria 2 conselheiras na Africa do Sul.
2º.-A ideia de me candidatar foi sugerida por familiares que souberam da dificuldade em arranjar uma lista entre Joanesburgo e Pretoria. Já tinham 3 candidatos mas devido a lei da paridade e de que o Consulado de Pretoria deveria ter um candidato, por isso inscrevi-me nessa lista.. Sem a imposição Juridica não seria fácil arranjar uma lista vencedora.
3º. Acredito que as mulheres levarão ao Conselho novas temáticas pois são mais sensíveis aos problemas das comunidades no âmbito familiar, social, associativo ,cultural e cívico..
4º.-As comunidades portuguesas por iniciativa própria tem- se organizado e dado resposta as dificuldades dos Portugueses : Arranjaram Escolas igrejas ,construíram clubes associativos ,ranchos folclóricos, centros desportivos e culturais, centros de Dia e lares da 3ª. Idade porque a nossa emigração esta ficando muito envelhecida . As minhas propostas basear-se-ão nos temas principais da educação ,língua e cultura e a solidariedade social.
5º .A nova configuração do CCP está melhor , mas deveriam ter conselheiros em todas as áreas consulares .
6º.- O CCP deverá divulgar todas as suas atividades nas redes sociais e no movimento associativo.
7º.- O CCP deverá sempre cooperar e colaborar com o associativismo e outros conselhos de imigrantes e articular com conselhos das regiões autónomas.
8º.- O CCP terá de mobilizar esforços para cooperar com as organizações de juventude e de 3ª. Idade ..
9º.-Ser eleita conselheira é uma prova de muito trabalho e do reconhecimento desta comunidade .Contei com o apoio e incentivo dos meus familiares e amigos. Felizmente nasci numa família que fundaram a Liga da Mulher Portuguesa na Africa do Sul( do lado de minha mãe) e Rancho folcrórico que fiz parte como dançarina .Meu pai fundou a Casa Social da Madeira. Ambos foram conselheiros das comunidades Portuguesas e Madeirenses. As figuras Históricas que admiro mais:LuisdeCamoes e José Saramago.

 



Questionario (continuacao) no.9
Helena Sofia Baptista Rosa Rodrigues, nasci no Funchal –Madeira a 14-2-1969 e vim para a Africa do Sul a 11-11-1972, com pouco mais de 3 anos.
Estudei e acabei o Curso Secundário em 1986
Tirei um curso no Instituto Técnico de Desenho e decoração de interiores que finalizei em 1990.
Casei em 1993 com Jose Luis Carreira Rodrigues e mae de 2 filhas.
Desde 1996 trabalho como consultora de arquitetos em desenho e decoração, na área da construção. Já ganhei muitos contratos e fornecemos materiais a mais 30 hospitais e clinicas, na Africa do Sul, Namibia e Lesotto, e vários centros comerciais. E um trabalho muito exaustivo. Tenho uma companhia própria Pro Arch Building Spec.CC.
As minhas atividades sociais foram sempre desde pequena orientada pelos meus pais, que tiveram funções diretivas em varia associações sociais, culturais e de benificiência onde sempre colaborei . Hoje colaboro muito com as organizações de solidariedade Social, Liga da Mulher Portuguesa, e Universidade Sénior Boa Esperança e nos lares da 3a. Idade
No Ano de 2010 fui nomeada pelo Governo Regional da Madeira - Delegada- para organizar uma representação dos melhores estudantes- desportistas, em várias modalidades para competirem na Festa do Desporto Escolar na Madeira. Estavam representantes de todos os países do Mundo de emigração e da Madeira, num total de cerca de 5000 alunos. Foi uma experiencia única e valiosa numa semana intensa de torneios, donde regressamos felizes com 3 medalha de ouro.
Se não tivesse vindo para a Africa do Sul, naturalmente não me teria envolvido tanto nestas organizações, pois as situações na emigração são mais chocantes. Existem casos de grande carência social na nossa comunidade emigrante, sem apoios do governo deste País e de Portugal. E essa a razão que unidos tentamos resolver todos os problemas. Os emigrantes na Africa do Sul não estão protegidos pela segurança Social, que não existe. Já foram iniciadas negociações para um acordo de Seguranca Social entre Portugal e Africa do Sul, mas ate hoje nada foi resolvido, porque neste Pais nada esta organizado nesse sector. Será uma luta continua do CCP.
Ao ser eleita para CCP, penso que é uma resposta ao trabalho realizado na comunidade e o reconhecimento da mesma
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Helena Rodrigues 13 de Novembro 2015 Pretoria



----- Fim de mensagem reenviada -----

AS MULHERES no CCP Conselheira MARIA VIOLANTE MARTINS (Argentina)



1 - Entre os conselheiros eleitos ao 1º CCP, em 1981, não havia uma única mulher. Em 2015, são 12 as conselheiras eleitas. Como avalia esta evolução, face à realidade atual das comunidades portuguesas, por um lado, e, por outro, aos objetivos da Lei da Paridade?
Creo que es un avance muy importante. Estamos alineados con la ley de paridad. Hoy en día el mundo se mueve con otros valores, donde la mujer es una persona tan independiente como el hombre. Con igualdad de posibilidades en el trabajo, la educación e incluso la política. Sin ir más lejos la presidenta de la República Argentina, es una mujer.
Creo que el hecho que hayan sido electas doce mujeres conselheiras es un claro ejemplo que las reglas están cambiando, y se le está dando un rol a la mujer que es equitativo al del hombre. Los derechos y responsabilidades se están equiparando y van más allá del género. En el contexto actual de nuestro país, se le está dando gran importancia a estas cuestiones, poniendo el foco en la igualdad de oportunidades tanto para hombres como para mujeres. Que esto se vea reflejado en el mundo teniendo en cuenta la cantidad de conselheiras electas creo que es muy positivo.
2 - Como surgiu a ideia de se candidatar ao CCP? Foi fácil formar uma lista segundo as regras da Lei da Paridade, organizar o programa eleitoral, fazer campanha?
Teria preferido, na ausencia de imposições jurídicas, elaborar uma lista exclusivamente feminina?
La principal motivación fue la voluntad de participar y poder trabajar en pos de la comunidad, desde otro rol. Si bien toda mi vida he trabajado por y para la comunidad portuguesa en Argentina, creo que esta vez es desde otro lugar que puedo realizar mis aportes. Me movió a participar todo lo relacionado con el voluntariado y solidaridad.
No fue difícil, pero tampoco fue fácil la aceptación. Desde mi punto de vista, se trató de un proceso, donde hubo charlas e intercambios de opiniones. La comunidad se puso de acuerdo.
Me parece bien que la lista esté conformada por un hombre y una mujer. Creo que relacionándolo con la diversidad de género, es lo óptimo. No hubiese preferido hacer una lista exclusivamente femenina, porque creo que va más allá del género de cada uno. Considero que estamos viviendo un momento de igualdad que cada vez se nota más.
3 - Considera que as mulheres querem e podem levar a debate novas temáticas, uma forma diferente de estar e trabalhar no grande forum democrático que é o Conselho, ou, pelo contrário, pensa que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, sem que isso signifique, necessariamente, a valorização das particularidades de género?
Por supuesto que las mujeres pueden abrir nuevos debates y temáticas, pero no por su condición de mujeres, sino por la cantidad de opiniones y vivencias de cada persona. Es por ello, que le doy suma importancia a la igualdad de género, con todas las oportunidades y maneras de participación que ello conlleva.
Las opiniones tanto de hombres como de mujeres, tienen que ser en igual medida.
4 - Quais são as principais propostas que levará a Lisboa, ao próximo plenário do CCP?
Tenemos diferentes propuestas pensadas de cara a Lisboa. Algunas de ellas son:
- Promover entre los portugueses que se encuentran en Argentina, el ejercicio del deber cívico a votar
- Crear un órgano consultivo integrado por jóvenes para trabajar de manera conjunta.
- Escuchar a nuestros mayores para escuchar sus necesidades y aprender de sus experiencias; y poder ser el nexo directo con Portugal.
- Lograr una comunicación fluida con todas las instituciones portuguesas de la Argentina.
- Promover las actividades culturales en todas sus expresiones y variantes
- difundir la cultura no solo en los nichos portugueses por excelencia sino en todos los rincones del país donde haya un portugués.
5- O "Conselho" português tem avançado, tal como os seus congéneres europeus (o francês,que foi o modelo em que o nosso se inspirou, como aconteceu, alguns anos mais tarde, com o italiano e o espanhol) numa linha de experimentalismo de soluções que melhor sirvam em concreto a prossecução dos seus objetivos. Como vê a nova configuração do CCP?
Creo que ahora la ley está mucho más completa. Se ha avanzado en muchos sentidos y creo que ahora podemos hablar de un espacio más inclusivo con igualdades inter-géneros.
6 - O CCP tem já uma história muito rica, mas mal conhecida em Portugal (do mesmo, aliás, se queixam os representantes do organismo francês, apesar do seu grau de institucionalização, inclusive, no quadro constutucional, e da sua transformação em "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" , dos meios acrescidos de que dispõe).
O que se poderia fazer para o divulgar?
En primer lugar, es necesario buscar distintos medios de comunicación para poder difundir todos los logros e historia del CCP. En este sentido, es importante aprovechar las redes sociales, que tienen llegada a todo el mundo. También crear informes que permitan acercar al CCP a la comunidad, dejando en claro cuáles son las funciones que le competen al CCP. (Por ejemplo, que los ciudadanos entiendan que se ocupa de problemáticas de inmigrantes).
Creo también que es parte del rol del consejero, el divulgar el trabajo realizado por el CCP.
7 - Seria útil iniciar, numa perspetiva de análise comparativa, e até de articulação de ações, contactos com os membros de outros Conselhos de imigrantes, caso existam no país onde reside? E com o movimento associativo das nossas comunidades - do qual era oriundo o 1º CCP, na década de 80 - mantêm-se ou, se não, devem retomar-se laços de estreita cooperação?
Por supuesto que si. Sería óptimo para poder compartir experiencias, visiones, poner en común problemáticas y ver cómo se puede salir adelante. Nuestro país en particular, es una cuna de múltiples culturas, con las que nos relacionamos constantemente.
8 - Que papel desempenha ou pode desempenhar o CCP num esforço de concívio e cooperação, não só de género, como de geração, mobilizando para a intervenção cívica os mais velhos, os mais jovens, os recém-cehgados?
Creo que el papel que debe desempeñar principalmente el CCP, es el de nexo: Vincular y aproximar a la gente joven con la mayor: demostrar que todas las generaciones tienen puntos fuertes que unidos, sirven para trabajar en pos de la comunidad. Unir la experiencia de los más grandes con la fuerza y las ganas de trabajar de los más jóvenes, siempre en un marco de diálogo, permitirá lograr nuevas cosas, donde todas las generaciones se sientan cómodas y a gusto.
Lo mismo ocurre con la cuestión de género: ir más allá y trabajar con el mismo objetivo. Uniendo experiencias y conocimientos, juntos, se llegará a mejores resultados.
9 - A terminar, pedíamos-lhe que nos falasse de si.
Ter sido eleita é, certamente, uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos comcidadãos. O viver fora de Portugal levou-a a um envolvimento cívico que talvez não tentasse nem conseguisse no país? O que a motivou fundamentalmente? Contou ou não incentivo ou apoio da família para a realização profissional e cívica? O que gosta de fazer nos tempos livres ? Quem são as personalidades que mais admira na história e na atualidade?
Lo que me movió es poder trabajar con la cultura y raíces. Mantener viva esa cultura en pos de la comunidad portuguesa. Y a su vez transmitirlo a nuestros hijos y nietos.
Conté con el apoyo de mi familia en todo momento. Fue un apoyo fundamental. Siempre me han acompañado.
En mis tiempos libres, me gusta bordar, estar con amigos, cantar en el rancho , disfrutar de la familia, pasar tiempo en la casa portuguesa de la cual formo parte. Estar en contacto con mi asociación .
Las personalidades que más admiro son muchas. Borges,por ejemplo. También Regina Pacini y más contemporánea Margarita Barrientos (La fundadora del comedor social “Los Piletones”, con quien tuve la suerte de charlar en la Feria de las Naciones). Con Margarita compartimos el objetivo del voluntariado. Tenemos ganas de hacer algo en conjunto. Creo que nos enriquecemos compartiendo con personas con las que compartimos objetivos. De sus vivencias y las mías, quizás se pueda armar algo lindo.


María Violante

terça-feira, 17 de novembro de 2015

As Conselheiras do CCP LUISA SEMEDO


QUESTIONÁRIO MULHERES CCP

 

LUÍSA SEMEDO

 

 

1 - Entre os conselheiros eleitos ao 1º CCP, em 1981, não havia uma única mulher. Em 2015, são 12 as conselheiras eleitas. Como avalia esta evolução, face à realidade atual das comunidades portuguesas, por um lado, e, por outro, aos objetivos da Lei da Paridade?

A evolução é positiva mas fica aquém dos objetivos  da Lei da Paridade pois 12 em 80 conselheiros estamos ainda a 15% de mulheres, menos de metade do pretendido com a lei da paridade de 33,3% e comparado com o que realmente deveria ser para conquistar uma real representação da população que seria de 50%.

 

2 - Como surgiu a ideia de se candidatar ao CCP? Foi fácil formar uma lista segundo as regras da Lei da Paridade, organizar o programa eleitoral, fazer campanha?

Teria preferido, na ausencia de imposições jurídicas, elaborar uma lista exclusivamente feminina?

Fui solicitada devido às minhas funções de dirigente associativa encabeçar uma lista e aceitei o desafio.

Foi fácil a constituição da lista, para mim era evidente que deveríamos ter no mínimo 50% de mulheres e até chegámos a ter 6 mulheres para 4 homens mas por razões, alheias à nossa vontade, acabámos por ficar com 5. No entanto é de referir que a nossa lista era a única lista em França com uma maioria de mulheres (3) em lugar elegível e com uma mulher como cabeça de lista e isso também foi uma questão de vontade expressa da nossa parte.

Não teria preferido uma lista exclusivamente feminina, pois o CCP sendo um orgão de representação parece-me normal que todos os cidadãos se sintam representados, sem contar com o facto que a diversidade é sempre uma riqueza.

 

3 - Considera que as mulheres querem e podem levar a debate novas temáticas, uma forma diferente de estar e trabalhar no grande forum democrático que é o Conselho, ou, pelo contrário, pensa que o mais importante é que a igualdade de oportunidades e a participação cívica sejam garantidas, sem que isso signifique, necessariamente, a valorização das particularidades de género?

Estamos tão longe ainda da paridade, que uma política de ação afirmativa que facilite a intervenção das mulheres me parece ainda indispensável, e nesse sentido a mensagem deve ser a da igualdade de oportunidades mas através de uma política de participação cívica voluntária de valorização da participação feminina. Mas não acho que se deva centrar a mensagem em questões de particularidades do género, estamos a falar de uma questão de justiça e de justeza na representação e não de especificidades de género que são muitas vezes falaciosas e contraproducentes.

 

4 - Quais são as principais propostas que levará a Lisboa, ao próximo plenário do CCP?

Dadas as minhas funções de dirigente associativa, o apoio às coletividades será uma das minhas prioridades. Encontramos no meio associativo todas as outras questões que dizem respeito às comunidades como o ensino do português, a juventude, os idosos, o apoio social, a integração, os novos emigrantes, a participação cívica ou a cultura. Penso que uma rede associativa forte, apoiada e reconhecida é um passo importante para o bem-estar e a boa integração dos portugueses no estrangeiro.

 

5- O "Conselho" português tem avançado, tal como os seus congéneres europeus (o francês, que foi o modelo em que o nosso se inspirou, como aconteceu, alguns anos mais tarde, com o italiano e o espanhol) numa linha de experimentalismo de soluções que melhor sirvam em concreto a prossecução dos seus objetivos. Como vê a nova configuração do CCP?

Penso que há uma diferença como sempre entre a teoria e a prática. No papel é uma boa ideia ter em conta as temáticas e as zonas geográficas, mas resta ver como as várias comissões vão poder funcionar no meio de uma configuração a meu ver um pouco complexa. Tudo vai depender igualmente dos meios que tivermos à nossa disposição para levar a cabo o nosso trabalho.

 

 

 

6 - O CCP tem já uma história muito rica, mas mal conhecida em Portugal (do mesmo, aliás, se queixam os representantes do organismo francês, apesar do seu grau de institucionalização, inclusive, no quadro constitucional, e da sua transformação em "Assembleia dos Franceses do Estrangeiro" , dos meios acrescidos de que dispõe).

O que se poderia fazer para o divulgar?

O CCP não é só mal conhecido em Portugal, é muito mal conhecido entre os portugueses no estrangeiro. Tivemos uma consciência aguda disso no momento da campanha eleitoral. Todos os meios de comunicação, inclusive redes sociais, devem ser utilizados para garantir essa divulgação. Mas será sobretudo a partir das ações e resultados do CCP que conseguiremos divulgar da melhor maneira este órgão.

 

7 - Seria útil iniciar, numa perspetiva de análise comparativa, e até de articulação de ações, contactos com os membros de outros Conselhos de imigrantes, caso existam no país onde reside? E com o movimento associativo das nossas comunidades - do qual era oriundo o 1º CCP, na década de 80 - mantêm-se ou, se não, devem retomar-se laços de estreita cooperação?

Sim sem dúvida, uma das missões do CCP deve ser a de criar pontes e sinergias com a outras estruturas que obram pelas Comunidades, que fazem um trabalho de terreno considerável, isso resultará num enriquecimento mútuo em prol do Portugueses no estrangeiro.


 

8 - Que papel desempenha ou pode desempenhar o CCP num esforço de convívio e cooperação, não só de género, como de geração, mobilizando para a intervenção cívica os mais velhos, os mais jovens, os recém-chegados?

Como referido anteriormente, devemos apostar numa rede associativa forte, apoiada por uma coordenação das coletividades com recursos que permitirá desenvolver o convívio, a cooperação e a intervenção cívica de todas as gerações e nomeadamente da nova vaga de emigração.

 

9 - A terminar, pedíamos-lhe que nos falasse de si.

Ter sido eleita é, certamente, uma prova de muito trabalho já realizado e de reconhecimento dos comcidadãos. O viver fora de Portugal levou-a a um envolvimento cívico que talvez não tentasse nem conseguisse no país? O que a motivou fundamentalmente? Contou ou não incentivo ou apoio da família para a realização profissional e cívica? O que gosta de fazer nos tempos livres ? Quem são as personalidades que mais admira na história e na atualidade?

O meu envolvimento cívico deveu-se em primeiro lugar a uma frustração enorme de não ter meios de voltar para o meu país e de necessitar de encontrar um meio de colmatar essa falta de Portugal. Este envolvimento permitiu-me encontrar uma « família » de substituição. Tenho trabalhado muito mas também tenho recebido muito em retorno.

Não é possível fazer um trabalho voluntário desta natureza sem o apoio da família, sobretudo quando se tem filhos pequenos.

Gosto de cultura, ciência e desporto e acabo por poder juntar o meu trabalho associativo a certas atividades que gosto de fazer no meu tempo livre.

As personalidades que mais admiro são todos aqueles que lutaram muitas vezes a custo da sua vida ou integridade física pelos valores em que acreditavam independentemente de terem ficado com o seu nome conhecido na História. Os resistentes de Abril em Portugal, os ativistas dos direitos cívicos nos USA, os combatentes do apartheid na África do Sul, os lutadores da Primavera Árabe, são pessoas que me inspiram e humildam.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CONSELHEIRAS DO CCP HELENA RODRIGUES CV



 
Helena Sofia Baptista Rosa Rodrigues,

 Nasci no Funchal –Madeira a 14-2-1969 e vim para a Africa do Sul a 11-11-1972, com pouco mais de 3 anos.
Estudei e acabei o Curso Secundário em 1986
Tirei um curso no Instituto Técnico de Desenho e decoração de interiores que finalizei em 1990.
Casei em 1993 com Jose Luis Carreira Rodrigues e mae de 2 filhas.
Desde 1996 trabalho como consultora de arquitetos em desenho e decoração, na área da construção. Já ganhei muitos contratos e fornecemos materiais a mais 30 hospitais e clinicas, na Africa do Sul, Namibia e Lesotto, e vários centros comerciais. E um trabalho muito exaustivo. Tenho uma companhia própria Pro Arch Building Spec.CC.
As minhas atividades sociais foram sempre desde pequena orientada pelos meus pais, que tiveram funções diretivas em varia associações sociais, culturais e de benificiência onde sempre colaborei . Hoje colaboro muito com as organizações de solidariedade Social, Liga da Mulher Portuguesa, e Universidade Sénior Boa Esperança e nos lares da 3a. Idade
No Ano de 2010 fui nomeada pelo Governo Regional da Madeira - Delegada- para organizar uma representação dos melhores estudantes- desportistas, em várias modalidades para competirem na Festa do Desporto Escolar na Madeira. Estavam representantes de todos os países do Mundo de emigração e da Madeira, num total de cerca de 5000 alunos. Foi uma experiencia única e valiosa numa semana intensa de torneios, donde regressamos felizes com 3 medalha de ouro.
Se não tivesse vindo para a Africa do Sul, naturalmente não me teria envolvido tanto nestas organizações, pois as situações na emigração são mais chocantes. Existem casos de grande carência social na nossa comunidade emigrante, sem apoios do governo deste País e de Portugal. E essa a razão que unidos tentamos resolver todos os problemas. Os emigrantes na Africa do Sul não estão protegidos pela segurança Social, que não existe. Já foram iniciadas negociações para um acordo de Seguranca Social entre Portugal e Africa do Sul, mas ate hoje nada foi resolvido, porque neste Pais nada esta organizado nesse sector. Será uma luta continua do CCP.
Ao ser eleita para CCP, penso que é uma resposta ao trabalho realizado na comunidade e o reconhecimento da mesma
 
                                                                         .13 de Novembro 2015 Pretoria

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DR. JOSÉ ARANTES na SORBONNE 10 setembro 2015


O Papel dos Media Portugueses na Emergência de uma Diáspora Lusófona
No dia 27 de junho de 1214, o rei Afonso II escreveu um texto muito curioso:

“Eu rei Afonso pela gracia de Deus Rei de Portugal, sendo sano e saluo, (…) fiz mia mãda per que depois mia morte meus filios e meu reino e meus vassalos e todas aquelas cousas que Deus mi deu en poder sten en paz e folgãncia”.

O testamento do rei Afonso, já lá vão oitocentos anos, constitui o primeiro documento escrito nessa língua singular que tomaria o nome de “Português” e passaria a representar o início da grande aventura da língua portuguesa. Uma aventura, portanto, de oito séculos, vivida através de mares tenebrosos, florestas tropicais, praias exóticas, até ao extremo oriente ou à ponta sul das Américas.

Claro que no séc. XIII a língua já era falada pelo povo mas teria pouco relevo se o rei Afonso não a tivesse utilizado num documento oficial de tamanha importância. Confinado a um pequeno espaço na ponta ocidental da Europa, o português assim permaneceu por dois séculos até à grandiosa epopeia das navegações portuguesas do séc. XV. Com os Descobrimentos, levámos a bordo das naus portuguesas a nossa maneira particular de ver o mundo, a nossa língua. O português navega para sul, ganha expressões regionais, torna-se língua de comércio e de tráfego, lança as bases da sua futura internacionalização. Torna-se também a língua de outros povos.

Por quatro séculos a língua portuguesa fica entregue ao acaso e à necessidade. O séc. XX, já para lá do seu meio, apenas conhece dois países de língua portuguesa: Portugal e Brasil. Sem concertação de políticas ou de interesses, muitas vezes sem democracia nem liberdade de expressão, nenhum dos dois foi capaz de articular uma política da língua ou uma estratégia para a sua projeção.

Com a democratização portuguesa em 1974, inicia-se a chamada “3ª Vaga da Democratização” que se estenderá ao Brasil. Em África surgem cinco novos países de língua portuguesa. Em conjunto, este grupo de sete países criará, 22 anos depois, a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa – CPLP.

A CPLP é uma comunidade de estados muito particular. Todos os seus membros são países marítimos, têm problemas de desenvolvimento assimétrico, não têm fronteiras partilhadas e, com exceção de Portugal, são ricos em petróleo e hidrocarbonetos.

Hoje a CPLP é composta por nove membros efetivos, estando pendentes dois pedidos de adesão, seis membros associados e treze pedidos para membros observadores. Esta espantosa evolução é muito bem ilustrada pela importância do português no mundo: é falado por 250 milhões de pessoas, é a primeira língua no hemisfério sul e a terceira na internet, é língua oficial em vinte e seis organizações internacionais. Esta projeção não seria possível, ou pelo menos não teria a dimensão que tem, sem todos aqueles que, espalhados pelo mundo, falam o português.

As comunidades lusófonas, criadas ao longo de séculos com sucessivos movimentos migratórios, são o protagonista central desta aventura da língua, iniciada há oitocentos anos.

Devemos à emigração muita da importância da nossa língua.

Assistimos hoje a um novo movimento migratório, traduzido na saída do país de jovens qualificados, em busca de realização pessoal e profissional. Podemos ver neste fenómeno algo de negativo, um movimento que empobrece o país, privando-o de parte da sua gente mais jovem e mais qualificada. É sem dúvida verdade, embora não toda a verdade.

Quem hoje deixa Portugal, munido de boas qualificações e de altos graus académicos, ocupa muitas vezes lugares de destaque em importantes empresas, universidades e várias organizações internacionais. Todos estes portugueses constituem um ativo importantíssimo para o nosso país. Em conjunto formam uma rede de contactos, influencias e conhecimento que pode ser posta ao serviço do interesse nacional.

Assistimos hoje à constituição de novas comunidades portuguesas, mais pequenas, mais dispersas e mais atomizadas mas muito influentes e prestigiadas. O grande objetivo terá de ser o de pôr toda essa gente a colaborar em rede e de lhe dar unidade e coerência. É um trabalho diplomático e consular mas também das associações portuguesas e de toda a sociedade civil.

Portugal dispõe, neste início de séc. XXI, de três ativos importantes: a nova plataforma continental e as possibilidades de exploração marinha que ela oferece, a relação privilegiada com África e o seu potencial económico e cultural e as Comunidades Portuguesas e o seu peso nas relações internacionais. Estes ativos, sobretudo os dois últimos, assentam na língua portuguesa e na capacidade de orientar politicamente e de forma coerente o “bloco da lusofonia”.

Criar um “sentimento de pertença”, comum a todos quantos no mundo falam o português, é um grande desafio posto aos países lusófonos. Esse desafio só poderá ser enfrentado com êxito se incorporar uma vertente sólida de comunicação social; ela é o instrumento mais poderoso na criação desse “sentimento de pertença” e na construção de uma plataforma cultural onde se revejam todos quantos falam o português. Na sua diversidade, é esse o papel que podem assumir a televisões, rádios e jornais, nacionais e comunitários.

As Comunidades sempre evoluíram mais rapidamente do que os órgãos de comunicação social. Por isso cabe aos jornalistas e toda a indústria de media encontrar formas de suprimir esse atraso, encontrar novas formas de intervenção, acertando o passo pela dinâmica das comunidades, num esforço de modernização e de maior relevância junto dos seus públicos.

Os media portugueses terão de ser o elemento central na criação de um “lóbi português” à escala mundial, o que pressupõe também um entendimento estratégico entre os nove Estados da CPLP. Só assim poderemos dar continuidade a essa aventura, velha de oito séculos, que é a Língua Portuguesa.

José Arantes

Sorbonne, 10 de setembro de 2015

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

MARIA BEATRIZ ROCHA TRINDADE sobre ROSA SIMAS


Rosa Maria Neves Simas, coord., (2014). A Vez e a Voz da Mulher. Relações e Migrações. Lisboa: Colibri, 340 p.

 

O livro A Vez e a Voz da Mulher. Relações e Migrações, coordenado e organizado pela socióloga Rosa N. Simas, Professora da Universidade dos Açores, foi editado pelas Edições Colibri em dezembro de 2014. O seu lançamento viria a ter lugar, no âmbito do VII Congresso Internacional "A Vez e a Voz das Mulheres Migrantes em Portugal e na Diáspora: Mobilidades, Tempos e Espaços", que decorreu na Faculdade de Economia da Universidade do Porto (2015). Uma atividade académica que dá continuidade a um programa, oportunamente lançado por Manuela Marujo, Professora da Universidade de Toronto. Sem a sua persistência, capacidade de articulação institucional e qualidade de relacionamento pessoal tal não teria sido possível.

O tratamento de vários aspetos subordinados ao tema "mulher" confere-lhe atualidade e as migrações, que continuam a ser objeto de interesse político e científico, mantendo-se como um dos fenómenos sociais dominantes na cena internacional, merecem uma atenção privilegiada. O tema cuja amplitude permite albergar, várias aproximações, reflete observações e interpretações diversificadas selecionadas pelo critério de uma comissão científica que integrou docentes de diversas universidades.

Coube à organizadora escolher os subtemas dos seis capítulos que o constituem, de modo a que não existisse sobreposição de assuntos mas antes articulações de natureza complementar.

No primeiro, "Vozes de Mulheres: Da Oralidade à Escrita", seis artigos traduzem não só a oralidade que exprime o pensamento e o sentir de quem se pronuncia como a forma escrita que os consagra.

Roseli Boschilia ("Memória e Subjetividade: As Venturas e Desventuras de uma Emigrante Portuguesa") fala de deslocações intercontinentais e refere as reações e os sentimentos de uma migrante - Maria de Nazaré. As trajetórias por ela realizadas, registadas na sua memória, foram transmitidas segundo as regras da metodologia de pesquisa designada como "história oral".

Sângela Hilarino analisa os "Múltiplos Olhares de uma Imigrante Negra em Portugal". O trabalho que pode ser considerado um "estudo de caso" traduz a experiência de uma cabo-verdiana residente no país, expondo os problemas decorrentes do processo de adaptação.

A jornalista Nita Clímaco que hoje já muitos esqueceram ou mesmo desconhecem distinguiu-se no panorama literário português sobre a migração intraeuropeia. "Quando a Literatura Retrata a Diáspora Portuguesa em França" de Isabelle S. Marques reabilita a sua memória e permite lembrar como o romance pode constituir um poderoso auxiliar para a reconstituição da sociedade que lhe serve de pano de fundo.

O percurso de "Ana Fontes: Uma Vida Suspensa de Muitas Pontes", por Maria A. C. Baptista dá conta da mobilidade que marca o percurso de uma mulher à frente do seu tempo. O pendor poético que caracteriza esta artesã mariense encontra-se patente em cadernos manuscritos que a autora procurou trazer à luz do dia.

Cassilda T. Pascoal em "Quem tem Medo de Alice Moderno" equaciona a vida pouco convencional de uma notável açoriana que recusou sempre o papel secundário imposto pela sociedade da sua época. Dedicada a causas sociais deixou um importante legado reconstituído pela autora.

A conjugação do mundo natural com o cultural é analisada em "Frances Dabney e Samuel Longfellow: A Natureza dos Açores numa Perspetiva Feminista e Ecocrítica", de Rosa M. N. Simas. O encadeado temático e a ilustração apresentados enfatizam o impacto da envolvência da natureza dos Açores em dois jovens artistas norte-americanos induzindo o leitor a vivenciá-la.

O título "Comunicação: Da Carta à Internet" atribuído à Parte 2, com textos de Maria Izilda Matos, de Isaura Ribeiro e de Ana M. Diogo, explicita claramente o alinhamento escolhido, incidindo sobre a diversidade dos processos de comunicação.

"Elos de Tinta e Papel: A Presença Feminina na Correspondência entre E/Imigrantes Portugueses" debruça-se sobre as missivas que sempre constituíram ponte transmissora de notícias e de sentimentos. Para conhecer as deslocações que ocorreram entre a sociedade de partida e a de acolhimento, relacionando passado e presente, foi utilizado um diversificado e valioso suporte escrito que integra não só as cartas de chamada como as cartas pessoais.

"A Presença da Mulher na Internet", cuja introdução e evolução altera drasticamente a vida em sociedade, teve por base um estudo bibliográfico aprofundado, permitindo à autora trabalhar sobre resultados disponíveis que tiveram em conta as competências adquiridas, a regularidade do acesso, a construção de blogues e a presença nas redes sociais.

"As Mães no Uso das Novas Tecnologias pelas Crianças: Protagonismo Feminino num Universo Masculino" revela a relação que ocupam os alunos no mundo digital, relacionando o contexto familiar de onde provêm e o espaço social onde se inserem com o grau de sucesso escolar atingido.

Os textos incorporados na Parte 3, de temática e abordagem muito diferentes, contemplam o tema: "Tradições, Artes e Saberes". Carmen Ponte lança um olhar de grande interesse sobre "A Questão do Género nas Romarias Quaresmais de São Miguel". A figura feminina enquanto romeira, que nos é dada a conhecer através das histórias vividas e cantadas pela literatura e pela arte, relatam um riquíssimo conjunto de testemunhos escritos e orais graças à investigação realizada.

Seguem-se as apresentações de Ilda Januário e Manuela Marujo sobre a comunidade portuguesa imigrada no Canadá. "Coroa e Bandeira: Mulheres e Homens nas Festas do Espírito Santo no Canadá", seleciona dois elementos fundamentais do culto próprio das Festas como objeto de estudo que não poderiam ter sido tratados de melhor forma. No quadro da religiosidade popular são assinaladas as expressões, as críticas, a discrepância e proibições resultantes de uma política tradicional que conseguiu reduzir ou quase excluir, a participação do sexo feminino nas Romarias do século XX.

"Artes e Saberes Artesanais das Imigrantes Luso-Canadianas: Que Futuro?" reconhece no âmbito do quadro da arte popular a importância dos artesãos e das artesãs que conjugam memórias herdadas de uma infância, que teve lugar em espaços diferentes, com as práticas do viver atual. De entre as vertentes que pode assumir este tipo de trabalho, é dado relevo à função que ocupa como atividade profissional ou como terapia emocional. Por fim, é aberta a perspetiva de preservar a existência do trabalho artesanal através de acervos relacionados com a história da comunidade local.

"Retratos de Mulheres: Da Música à Escrita" integra quatro textos relacionados com práticas artísticas femininas dando a conhecer a potencialidade oferecida pelos discursos musicais, pela imprensa local ou por revistas femininas.

Em "Os Discursos (Re)Produzidos sob o Género Feminino na Música" Iran L. Nunes e Walkíria Martins, prestam uma particular atenção aos elementos relacionados com as representações sociais de letras musicais. A reflexão final traz a lume a carga transportada pelas práticas discursivas que muitas vezes sendo tratadas como "inocentes" transportam afinal opiniões e conceitos sobre formas de ser, de agir e de pensar.

Posteriormente, veja-se como 137 peças do jornal Açoriano Oriental e 71 do Correio dos Açores constituíram o corpus sobre o qual recaiu a análise feita por Ana C. Gil e Dominique Faria. "Representações da Mulher na Imprensa Regional Açoriana: O Caso Açoriano Oriental e do Correio dos Açores" dá a conhecer a forma como tem sido representada nos artigos publicados, raramente assumindo um lugar central no texto noticioso.

"Representações das Mulheres na Deportação" ressalta as considerações feitas à capacidade de apoio e suporte prestadas aos membros da família e as consequências de que são vítimas as mulheres se tal acontece a alguém a que se encontrem ligadas. A pertinência e atualidade do tema tornam particularmente oportuna a publicação do artigo de Ana T. Alves.

Leonor S.Silva, baseia em três pressupostos o artigo "Gatas Borralheiras Emancipadas? Representações de Mulheres em Duas Revistas Femininas Portuguesas". A persistência de idênticas prioridades temáticas nessas publicações confirma-as como elemento cultural. Entre crítica e fascínio, o resultado reconhecido a este tipo de revistas é o de papel apaziguador de muitas das tensões existentes na atualidade. Todo o trabalho desenvolvido foi apoiado em obras da especialidade, que revelam a cuidada preparação que precedeu a sua elaboração.

"Violência: Do Espaço Familiar à Prisão" - Parte 5 - integra quatro artigos que fazem confluir a preocupação dos autores em relação a um assunto com uma configuração muito própria. Como vítimas ("As Mulheres Enquanto Vítimas de Violência: O Caso de São Miguel no Século XIX"); confrontando o amor e o crime ("Espaços de Amor e Crime: Violência Doméstica em Lídia Jorge e Inês Pedrosa"); antevendo a mudança no devir ("Perspetiva sobre o Futuro em Mulheres com Experiência de Violência Conjugal") e o meio familiar em situações particulares de isolamento ("Reclusão Feminina e Processos de Reconfiguração Familiar") revelam uma preocupação marcante pelos ambientes e formas abusivas de relacionamentos.

Susana Serpa situa-se na sociedade micaelense do séc. XVIII e os dados apurados estendem-se até ao início do séc. XX. Sem deixar de fazer uma síntese da matéria exposta, reflete sobre o silêncio que em regra recai sobre o mundo do crime e da violência.

Deolinda Adão lança um olhar sobre a violência doméstica a partir das perspetivas de duas grandes escritoras portuguesas. Conclui mostrando como o problema da violência doméstica é ainda grave no país, justificando o que sobre ele tem sido escrito e o interesse que pelo seu tratamento têm mostrado muitos investigadores na área das Ciências Sociais.

Suzana Caldeira e Graciete Freitas colocam questões em torno da rutura de relações abusivas e remetem o leitor para a rica bibliografia citada, dando a conhecer como o tema tem sido amplamente tratado. Uma breve nota metodológica conduz às vias e aos instrumentos de pesquisa que foram escolhidos, o que constitui uma mais-valia para a interpretação dos resultados apresentados.

Rafaela Granja, Manuela Cunha e Helena Machado meteram mãos ao tratamento da "Reclusão Feminina e aos Processos de Reconfiguração Familiar", abordando os impactos sócio familiares resultantes da privação de liberdade. As implicações advindas da situação de reclusão constituem a síntese de um artigo muito rico e inovador no quadro português de análise social.

A Parte 6, "Migração, Trabalho e Qualificação", coloca novamente em destaque o contexto migratório.

Natália Ramos, escreve sobre "Género, Identidade e Maternidade em Famílias na Diáspora"). É lembrada, mais uma vez, como a fuga à pobreza e a falta de oportunidades, associam situações de violência e de opressão existentes tanto ao nível comunitário como no interior das próprias famílias. Em destaque, o tratamento das políticas e estratégias migratórias no que toca à integração, ao desenvolvimento e ao bem-estar. A formação pioneira que detém na área do intercultural encontra-se claramente refletida na exposição temática apresentada.

A introdução de Conceição P. Ramos no artigo "Migrações Qualificadas Femininas: Desafios e Oportunidades" transporta-nos a considerações de caráter geral que colocam as migrações no seio do crescente movimento de globalização dando lugar a importantes mudanças de natureza qualitativa. Como última proposta a autora aponta sugestões que podem ser desenvolvidas no âmbito de um melhor aproveitamento da mobilidade, tendo em conta o incremento científico cultural e económico e o aumento dos fluxos migratórios internacionais qualificados.

"A Arte de Ser Maria: Histórias de Trabalho, Histórias de Vida", de Lená M. Menezes, lança um rápido olhar que contempla a evolução das migrações naquele país e centra a sua atenção sobre o Estado do Rio de Janeiro. A composição dos fluxos, desequilibrada em termos de género e também menos conhecida ao nível dos estudos ou comentários feitos sobre as mulheres, dá-lhe ensejo de procurar reunir um conjunto de reflexões cujo interesse é indubitável. Toda a informação colhida em trabalho de campo permite seguir os percursos pessoais e profissionais dos entrevistados que, embora representando uma escolha intencional, ilustram de forma muito rica as suas histórias de vida.

As duas autoras do texto "As Mulheres que Trabalham com Fios: Conhecimento Forjado desde as Margens", encerram o livro com chave de ouro. Amanda Castro e Edla Eggert apresentaram os resultados da pesquisa realizada sobre a tecelagem manual no Estado de Minas Gerais. A atividade artesanal referida encontra-se mapeada e presente em cerca de um quarto dos seus municípios, mostrando a importância que aí assume tal atividade. Trazer para o campo de estudos femininos a produção de tecelagem cria um espaço de debate que permite equacionar várias perspetivas e avaliar o grau de valorização que sobre ela recai.

Ao ter assistido presencialmente ao Colóquio que criou o espaço formal para a apresentação das comunicações aqui referidas e após ter lido o livro que consagra o seu conteúdo e o faz permanecer na memória, necessário se torna felicitar a organizadora. Embora a sua generosidade e companheirismo a tivessem feito referir o nome de quem lhe prestou colaboração, a ela é devido o trabalho essencial que tornou possível a edição do livro agora analisado.

Não constitui um trabalho fácil selecionar e reunir textos de trinta autoras de formação académica diferente, que tratam assuntos de natureza diversa, procurando agrupar cada uma das contribuições sob a cobertura de um só tema cuja abrangência seja capaz de as intitular. A escolha do nome de cada uma das Partes, que quase constituindo uma introdução, fazem antever o conteúdo de cada um dos textos publicados, proporcionando uma justa cobertura temática que sem criar fronteiras rígidas e tendencialmente limitadoras consegue criar espaços capazes de albergar contribuições diversas. As autoras conseguiram fazer chegar até nós histórias de mulheres que sem constituir representações estereotipadas podem ser consideradas como casos-tipo, ajudando a compreender a diversidade e extensão de uma tão vasta problemática. Todo este material constitui um valioso acervo documental que muito contribui para o avanço do conhecimento no campo dos estudos sobre a mulher.

 

 

Prof Doutor VIRIATO CAPELA Monção 5 de setembro 2015

Mulheres, figuras de Nação. Rosalía de Castro e Maria da Fonte
José Viriato Capela
Prof. Catedrático
Presidente da Casa Museu de Monção/Universidade do Minho
A ideia de Nação e Nacionalismo, como é sabido, é uma ideia “moderna”, do nosso século XIX, depois levada ao paroxismo com os Estados-Nação do século XX. Na base tem comumente o sentido de construção e reforço de identidade nacionalista e patriótica dos povos, com horizontes expansionistas assentes em múltiplos fatores, linguísticos, étnicos, geográficos, históricos, económicos, entre outros.
Na Península Ibérica eles também atuariam no sentido de reforço dos Estados e estão na origem da construção de Estados totalitários – Franquista e Salazarista – que se formaram em paralelo dos violentos Estados Fascistas italiano e nazi-alemão.
No que diz respeito a Portugal e Espanha, no seio da Península Ibérica, eles serviram para firmar as identidades e claras separações entre os dois Estados Peninsulares, isto sem embargo, algumas colaborações e aproximações entre ambos os regimes. A construção do Nacionalismo unitário franquista em Espanha teve, de algum modo, de se construir com e contra os nacionalismos e autonomias regionais; em Portugal o Nacionalismo português não se debateu com projetos de nacionalismos ou autonomias regionais. Reforçou a identidade nacional face a Espanha, de algum modo também o todo unitário de Estado colonial. E na Historiografia desenvolveu os estudos na perspetiva de valorizar dos fatores da identidade e singularidade da História portuguesa no conjunto peninsular.
A História Portuguesa, tem sido construída na base de uma Historiografia escrita por homens. Em particular, esta História dos Nacionalismos, que sendo um capítulo que envolve, de modo especial, domínios ligados a Ação política e militar, tem sido escrita sobretudo com base na História Política e militar e dos feitos heroicos dos portugueses.
As formas de nacionalismos, de base regional, que querem exprimir a força e identidade dos povos, numa perspetiva da sua afirmação particular em conjuntos mais vastos, que não passam necessariamente pela construção de grandes Estados, é uma realidade que não deve ser esquecida da História dos Povos, até porque eles põem em marcha outros agentes e referentes.
E relativamente a Espanha aí estão as múltiplas formas históricas de lutas, com base nas suas identidades «nacionais», pelos regionalismos, pelos estatutos autonómicos, pela própria independência nacional. Em Portugal, as manifestações desta índole nunca foram além de reivindicações regionalistas, sem horizontes políticos que não sejam o de defesa e promoção dos interesses regionais e num vago Provincianismo de base administrativa. ALíngua Portuguesa – que é única e forte no todo nacional e nas terras da Expansão Portuguesa – e a precoce construção de um Estado centralizado nunca propiciaram desenvolvimento de entidades regionais. O que é facto é que estes Estados fortemente centralizados provocam os maiores desequilíbrios no desenvolvimento nacional, que tanto ou mais que outros sentimentos de secundarização política, social, ou cultural, provocaram os movimentos reivindicativos regionais.
São conhecidos em Espanha desde o século XIX as lutas de algumas regiões, designadamente na nossa vizinha Galiza que desembocaram nos Estatutos Autonómicos. São também conhecidos em Portugal as reivindicações regionalistas da mesma etapa, que acabam por definir prosaicamente e temporariamente a Província (1936) como entidade administrativa. A tradição municipalista entre nós, desembocou, no Poder Local. A História dos movimentos regionalistas e pela autonomia ou mais prosaicamente, pela defesa das tradições e «liberdades» dos povos – face às Culturas e Estados Nacionais – escreve-se na Galiza e em Portugal, também com o nome de duas mulheres, Rosalía de Castro e Maria da Fonte. Elas vão associadas a processos de defesa e construção de identidades nacionais no século XIX de base regional e deixam bases para o futuro. Nessa perspetiva se lhes aplicará também o epíteto de Figuras de Nação, porque vão associadas à construção das bases e ideias dos Nacionalismos para as suas terras e regiões (caso de Rosalía) ou de outro modo de conhecer (defender) a Nação tradicional Portuguesa face às mudanças do Liberalismo (Maria da Fonte).
Apesar destas circunstâncias, não parecerá a muitos admissível a aproximação destas duas figuras, que exprimem a sua intervenção de modo muito diferenciado. De facto, uma,Rosalía de Castro, figura histórica bem fixada, na sua terra natal, na sua biografia, na sua obra literária e cultural; outra, Maria da Fonte, de difícil se não impossível fixação pessoal – identitária, mais expressão de movimento coletivo de mulheres, do que ação individual, isto é, mais mito do que realidade.
Mas a razão desta aproximação decorre do papel que ambas as figuras tiveram no processo de defesa e construção de identidades locais e regionais, em tempo de ativa absorçãoestadual e cultural dos seus territórios, a Galiza no grande Estado e Nação de Espanha, o Minho, e por ele uma certa personalidade e identidade social e cultural, no Estado e Nação Portuguesa, no século XIX.
São ambas contemporâneas do processo de abolição do Antigo Regime e de construção do Liberalismo em Espanha e Portugal, de disputas entre liberais e absolutistas e dos seus diferentes projetos de Sociedade. Atentam ambas por meados do século XIX, num estádio já desenvolvido da implantação do novo Estado Liberal, mais centralista que o Estado Absolutista do passado. E vivem e refletem o quanto essa evolução política tem sido feita contra ou a desfavor dos Povos e das Culturas das suas regiões e províncias.
Rosalía fixará por então desde meados do século XIX em prosa e poesia a mais dolorida expressão a que está a ser votado o Povo Galego, pelo desprezo e desclassificação a que está a ser votada a Língua galega e sua Cultura no seio de outras Nações peninsulares,face a Castela, sobretudo. E também, às forças económicas e anímicas da Galiza, que se estão a exaurir sob o efeito da Emigração. Galiza que considera e elege como mais rica e úbere região de Espanha se a libertarem dos estrangulamentos a que vai submetida.
Maria da Fonte, de armas na mão, a partir da Póvoa de Lanhoso, também a meados do século, desde 1846, mobilizará o povo minhoto e nortenho contra as instituições do Liberalismo e do Cabralismo em defesa das «Santas Liberdades» que aqui são a uma expressão mobilizadora a defesa das velhas tradições contra um Estado e Governo Ditatorial.
Aproxima então Rosalía de Castro e a Maria da Fonte o mesmo sentido de defesa da autonomia das terras e das regiões e vontade da sua afirmação política e cultural, em tempos, em que regiões e províncias periféricas como a Galiza e o Minho estão a ser secundarizadas e diminuídas.
Estamos em face de movimentos de natureza diferente: um que pelas Letras e Cultura quer defender e promover o seu povo e lançar os fundamentos do resgate do Povo galego; outro que pelas Armas quer combater um Estado centralista e opressor que governa contra a Nação, isto é, contra os Povos.
São conhecidas as armas e as gestas militares da Revolução da Maria da Fonte que logo se estenderá a todo o Minho e que tomará a designação de Revolução do Minho.
Para Rosalía de Castro é a Cultura e a Língua que devem ser as Armas defesa do Povo Galego. Vale a pena fixar aqui a apresentação de Rosalía à sua mais notável obra que virará matriz do galeguismo, os «Cantares galegos» (1ª ed., 1863; 2ª ed., 1872)..
«E a nossa língua não é aquela que bastardeiam e champorrem torpemente nas mais ilustradíssimas províncias, com uma risa de mofa, que a dizer verdade (por mais que esta seja dura), demonstra a ignorância mais crassa e a mais imperdoável injustiça que pode fazer umaprovincia à outra provincia irmã, por pobre que esta seja. Mais é aqui que o mais triste nesta questão é a falsidade com que fora daqui pintam, assim os filhos da Galiza como a Galiza mesma, a quem geralmente julgam o mais despreciado e feio de Espanha, quando acaso seja o mais fermoso e digna de alabança».
Qual o diferente legado das ações e obras destas duas figuras (movimentos)?
Em Rosalía de Castro o mais profundo sentido otimista do destino do Povo e Nação galega. E também do papel e lugar da sua Língua que com a sua obra será a verdadeira fundadora do Galego como Literatura Moderna. Na Maria da Fonte e Revolução do Minho, o sentido da luta contra os autoritarismo e despotismos e a defesa dos valores tradicionais dos povos e regiões.
A Maria da Fonte, como ação política teve efeito imediato no Levantamento Minhoto,Nortenho e Nacional contra o Governo de Costa Cabral e suas medidas, que levam à sua queda. A obra literária e poética de Rosalía de Castro só será o fundamento da luta pelo nacionalismo galego, mais tarde, porque a sua obra só será publicada lida e reconhecida, por finais do século XIX e no século XX em que perduraria pela «atração insuperada dos seus versos regionais».
De qualquer modo ambas tiveram um papel importante nos processos dos ressurgimentos nacionais e nacionalistas de finais do século XIX, que preparam os movimentos republicanos, em Espanha e Portugal, e que passam, em ambos os casos pela valorização, papel e lugar que devem ter os territórios, as províncias, as regiões no processo global dos Ressurgimentos Nacionais.
Rosalia de Castro virará a maior referência dos promotores do Nacionalismo Galego.Maria da Fonte, suporte de um vago Regionalismo e Provincianismo bandeira de forças liberais e conservadoras, na sempre expressão da capacidade das terras e regiões de afirmar a sua identidade e tradição.
No final de contas, também, dois modos diferentes de intervir, de base feminina: oliterário, o cultural, da obra individual que mobilizará as vontades a mais largo prazo do povoque contra e a quem se dirige; o belicoso e guerrilheiro do movimento coletivo, de rutura e gestos violentos mas que sempre também se perpetuam e vem à memória.