Em homenagem a Alice Munro, Prémio Nobel de Literatura 2013
Dear Life,
Amada Vida na tradução portuguesa
da Relógio d’Agua, é uma colectânea
de histórias, ou ‘ficções curtas’, como se diz agora, publicada por McClelland
& Stewart, de Toronto, em 2012. As últimas quatro são precedidas por umas
cinco linhas em itálico, onde a autora chama a atenção para o carácter
semi-autobiográfico das histórias que vai contar, indicando também que não
voltará a escrever sobre ‘a sua própria vida’.[1] O facto
é que Alice Munro continua a fazer aqui o que sempre tem feito, isto é,
escrever ficção imitando a realidade ou a realidade da ‘sua própria vida’, como
acontece em obras anteriores, entre elas, Who
Do You Think You Are?, de 1978, cujas personagens e situações surgem como que
reinventadas neste ‘Finale’ supostamente autobiográfico. A interdependência do
realismo narrativo e da narração subjectivada pelo recordar da memória é
evidente, por exemplo, em ‘Dear Life’, a história que dá o nome à colectânea,
onde não faltam as habituais interrupções, digressões e desvios inesperados ou
‘turnabouts’, como lhes chama a autora, assinalando a imprevisibilidade ou irracionalidade
do que acontece dentro e fora dos mundos possíveis da ficção. A narração, feita
por um eu feminino que regressa ao passado da sua infância e adolescência, começa
por descrever a região a norte do rio Maitland, detendo-se depois no local da
velha mercearia abandonada que servia de escola numa pequena comunidade ou ‘small-town’,
situada em Huron County, no sudoeste da província de Ontario, o referente espacial
privilegiado na ficção de Munro. A sociedade semi-rural que retrata é marcada
pela moral Presbiteriana dos primeiros colonos vindos das Ilhas Britânicas para
se fixarem no então Domínio do Canadá, onde a maioria se iria dedicar à
agricultura e ao negócio lucrativo das peles. Os referenciais históricos e
sociais na ficção de Munro, há muito desaparecidos, servem de enquadramento a
grandes e pequenos dramas humanos recriados a partir dos que se vivem neste
mundo dito real. Voltando de novo à
narradora, cujo nome próprio nunca é mencionado, sabe-se que nasceu em 1931,
por alturas da Grande Depressão económica que antecedeu a Segunda Grande Guerra
Mundial. Da escola degradada, onde foi vítima de várias formas de bullying, ela só recorda Diana, que
prometeu ensinar-lhe uns passos de dança escocesa. Mas, nunca chegaria a dançar
the Highdance fling porque,
entretanto, a mãe proíbe-a de voltar a casa da amiga por esta ser filha de uma
prostituta. Diana terá de abandonar a escola e procurar trabalho na grande
cidade, Toronto, onde provavelmente seguirá a mesma profissão da mãe. As
personagens de Alice Munro, na sua maioria mais loosers do que winners,
são diferenciadas também pelo género, como fica claro em ‘Dear Life’. O pai,
homem com pouca escolaridade e dado a excessos de violência, espanca a filha
brutalmente sempre que a mãe se queixa da maneira atrevida como a rapariga lhe
responde. Ele, que contava enriquecer com o negócio das peles, é uma das muitas
vítima da Grande Depressão. Terá de se desfazer da casa, das terras, do gado e do
espaço onde os animais em cativeiro eram esfolados ainda com vida. Arranja
trabalho numa fábrica de fogões, onde faz os turnos da noite, ocupação mal
remunerada, mas que dá para o sustento da família. A mãe, que tinha completado
a escola normal e ensinado na província de Alberta, sempre teve aspirações de ser
mais do que mãe e dona de casa. Veste-se de maneira diferente das outras
mulheres do seu meio e usa uma linguagem rebuscada que ninguém entende. O
comportamento da mãe dá nas vistas, o que não agrada à filha, que se mostra
mais tolerante para com o pai, apesar das tareias e humilhações a que ele a
submete. O pai não pretende ser mais do que é e, por isso, ninguém repara nele.
Aos quarenta anos, a mãe é diagnosticada com doença de Parkinson e, desde
então, é a filha quem cuida da casa e prepara as refeições. À noite, estuda
para os exames e embrenha-se na leitura de livros difíceis de compreender, como
À procura do tempo perdido, de
Proust, e A Montanha Mágica, de Mann.
Consegue terminar os estudos secundários, ao contrário da maioria das raparigas
do seu tempo, já casadas e com filhos. Em ‘Dear Life’ também não falta o
acontecimento insólito a tocar o gótico, como durante a evocação da visita de
Mrs. Netterfield. Segundo contava a mãe, era uma viúva meio tresloucada, que
tentou agredir com um machado o rapaz que entregava as compras ao domicílio por
suspeitar que ele se tinha esquecido de lhe trazer a manteiga. Um dia, a mãe avistou
Mrs. Netterfield a caminhar em direcção à casa onde viviam e, assustada com a
aparição da velha, agarrou a filha, ainda de colo, com quantas forças tinha ou,
como dizia a mãe, for dear life, escondendo-se
com a criança num lugar escuro da casa donde podia ver a louca a espreitar
pelas janelas. Só saíram do esconderijo depois de a mãe ter a certeza de que a
velha se tinha ido embora de vez. Soube-se depois que a tinham levado dali para
que não morresse só e abandonada. Mas, qual
não é o espanto da narradora quando, anos mais tarde, já casada e a viver em
Vancouver, encontra uns poemas escritos por alguém residente em Portland,
Oregon, cujo nome de solteira é Netterfield. Os poemas, inspirados na paisagem
da região a norte do rio Maitland, indicam que a autora também é oriunda
daquelas paragens. Descobre-se ainda que a mulher vivera na mesma casa em que a
própria narradora tinha vivido. O facto de a mãe desconhecer que a casa tinha
pertencido antes aos Netterfields estaria na origem do equívoco. A louca teria
vindo não para fazer mal a ninguém, mas à procura da filha poeta, naquela altura
já emigrada para outras paragens distantes. Ela não poderá esclarecer o
equívoco com a mãe, entretanto falecida, tendo de viver com esse e com outros
pesos na consciência, como o de não ter deixado os filhos e o marido sozinhos
em Vancouver para estar com a mãe nos seus últimos dias de vida e depois
assistir ao funeral. Daí, a necessidade de rever o passado como forma de expiar
os erros cometidos, sabendo, no entanto, que para alguns deles não há redenção possível,
a menos que a misericórdia divina os venha a perdoar, o que é imprevisível
nesta vida. As considerações da narradora, feitas a modo de exame de
consciência, no último parágrafo de ‘Dear Life’, causam um certo desassossego e
obrigam-nos a pensar no que fizemos ou no que deveríamos ter feito, uma reflexão
que vamos sempre adiando até nos sentirmos talvez menos agarrados à vida. Quem
havia de dizer que uma história cujo título sugere como que uma celebração da
vida poderia suscitar pensamentos tão sombrios ? Mas, deixando por instantes
esta fantasia perturbadora, como tantas que a autora tem forjado ao longo dos
anos, também não passaria pela cabeça de ninguém, pelo menos até há bem pouco
tempo, que estaríamos reunidos hoje, aqui, neste lado do mar Atlântico, para
celebrar a atribuição do Nobel de Literatura a Alice Munro, ela que, à
semelhança da narradora da história, sempre evitou dar nas vistas. Parece ser
mais um daqueles ‘turnabouts’ saído das suas muitas ficções e que nos leva a
pensar que a autora tem motivos de sobra para se sentir ainda agarrada à vida.
Laura Fernanda Bulger
Comunicação lida durante o tributo a Alice Munro,
Faculdade de Letras de Lisboa.
9 de Dezembro de 2013.
[1] ‘The final works in this book
are not quite stories,/They form a separate unit, one that is autobiographical/
in feeling, though not, sometimes, entirely so in fact. I/believe they are the
first and last – and the closest -/things I have to say about my own life’. (Alice
Munro, Dear Life, Toronto: McClelland
& Stewart, 2012).
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