sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Drª Teresa Almeida VPresidente da CIG


Expressões Femininas da Cidadania”

 

Na qualidade de Vice-Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), gostaria, em primeiro lugar, de agradecer o convite que nos foi endereçado para participar na mesa de abertura deste evento, que versará o tema “Expressões Femininas da Cidadania” e felicitar a Associação Mulher Migrante por esta iniciativa.

 

Os fenómenos migratórios apresentam múltiplas virtualidades para os países de acolhimento, quer do ponto de vista económico quer ainda no que representam em maior riqueza e diversidade cultural.

Tais mais-valias apenas terão expressão efetiva na medida em sejam asseguradas à população migrante as condições necessárias para uma participação num conjunto de sistemas sociais básicos, facilitadores de processos de inclusão social.

 

A integração de migrantes nas sociedades de acolhimento apresenta alguns constrangimentos específicos, como sejam: a) os baixos níveis de escolaridade e de qualificação de grande parte dos/as migrantes, b) dificuldades na obtenção de autorização de residência e de nacionalidade, c) – trabalho precário, não declarado e sem direitos, d) – segregação territorial (concertação em aglomerados habitacionais estigmatizados), e) – confrontação com uma cultura distinta, f) – ausência de uma conceção e uma prática intercultural instituída e generalizada, g) - discriminação e xenofobia, etc.

Estes constrangimentos colocam-se quer às comunidades de imigrantes residentes em Portugal, quer às comunidades portuguesas nos países que escolhem para construir um projeto de vida.

 

As mulheres representam uma vasta percentagem das populações migrantes e desempenham um papel importante na integração das suas comunidades. Contudo, para além daquelas vicissitudes que enumerei, sobre elas recaem ainda outras desigualdades, as desigualdades de género, experienciando assim discriminações múltiplas que as colocam em condição de particular vulnerabilidade a processos de exclusão social. Não obstante, a situação das mulheres, as suas necessidades, as suas contribuições e os obstáculos que têm de enfrentar surgem “invisíveis” quer nas estatísticas oficiais quer nas medidas de política.

 

As orientações de políticas consignadas nas políticas nacionais existentes nos domínios da inclusão social, da imigração ou da igualdade de género têm uma vocação generalista e especializada pelo que respondem parcialmente às necessidades da população imigrante e às mulheres imigrantes em particular, não atendendo às suas especificidades. Esta afirmação é válida pelo menos (e apesar de todos os esforços) para generalidade dos países do espaço europeu, que é a realidade que melhor conhecemos e onde o fluxo de migrações de cidadãos e cidadãs nacionais é significativo.

A múltipla discriminação requer uma abordagem integrada. O mainstream de género assume esse pressuposto de base. O IV Plano Nacional para a Igualdade, Género, Cidadania e Não Discriminação (2011-2013), coordenado pela CIG, tem-no como princípio fundamental e nesse sentido emana orientações para todos os sectores/áreas de descriminação com vista à promoção da igualdade entre homens e mulheres. Importará, à escala global, efetivar esse mainstreaming de género também nas políticas que atingem mais diretamente a população migrante, na medida em que, mulheres migrantes constituem um dos grupos sociais mais vulneráveis à pobreza e exclusão social. Em qualquer parte do mundo.

 

Impõe-se assim um esforço de concretização das orientações políticas constantes nos planos e políticas nacionais, traduzindo-os em medidas concretas, operacionais e focalizadas nos grupos sociais mais significativos do ponto de vista da sua posição de (des) vantagem social, económica e/ou cultural.

 

As mulheres migrantes e em processo de integração social, apresentam pois um conjunto vasto de situações-problema que requerem respostas específicas do ponto de vista das políticas públicas.

 

A integração da dimensão da igualdade de género nas políticas de imigração pode contribuir para melhorar a situação das mulheres migrantes, concorrendo para aumentar o seu acesso aos recursos, para melhorar o seu estatuto social e económico e o seu empoderamento, bem como para reduzir os riscos de exploração, a sua vulnerabilidade face ao gozo dos seus direitos humanos, incluindo o direito à igualdade entre mulheres e homens.

 

A mais recente emigração qualificada reveste-se de características, outras, que requerem também uma análise e uma intervenção específicas. …

Se a emigração pouco qualificada se socorria das redes de solidariedade proporcionadas pelos seus pares, (frequentemente conterrâneos ou familiares), a emigração atual que tem também como protagonistas cidadãos e cidadãs preponderantemente urbanos/as e qualificados/as não dispõem dessas redes de suporte. Por outro lado, junto destas migrantes mais facilmente se poderão criar condições para emergência de movimentos associativos, bem como de práticas empreendedoras.

O apoio na criação das suas associações e no desenvolvimento dos seus projetos (incluindo nos seus órgãos de tomada de decisão), são propósitos que estarão hoje mais facilmente ao alcance de serem atingidos, se as políticas de inclusão, imigração e género assim o reconhecerem.

Estas portuguesas poderão, aliás, desempenhar um papel importante na mobilização e capacitação da população migrante clássica, com menos recursos de base.

Termino felicitando, mais uma vez, a Associação Mulher Migrante, pela realização desta iniciativa.

Sem comentários:

Enviar um comentário