quinta-feira, 10 de maio de 2012


VIDA E OBRA DE MARIA ARCHER, UMA PORTUGUESA DA DIÁSPORA
29 DE MARÇO DE 2012, Salão Nobre do Teatro da Trindade
A propósito de Maria Archer
Viagens, diásporas e exílios
Ser escritora hoje
Sendo esta iniciativa uma parceria de várias entidades, entre as quais a associação “Mulher Migrante”, acho muito curioso este convite que me foi endereçado, eu que sou uma imigrante de mim em mim mesma. É também interessante o nome desta associação, porque contém em si os dois movimentos: para dentro e para fora, sendo que é sempre muto difícil saber, ao certo, o que é dentro, o que é fora. É muitas vezes quando saímos que encontramos o dentro; e vice-versa.
Disseram-me, há relativamente pouco tempo, para meu espanto: “Para quem gosta tanto de viajar, viajas muito pouco”. O espanto veio-me de nunca ter partilhado, com quem me falava, o meu amor pela viagem, penso até que nem comigo partilhara este secreto gosto, mas também me veio o espanto da declaração de que eu viajo muito pouco. Porque é verdade. Porque não é verdade. Porque nunca pensei nisto nem como um facto nem como uma limitação. Estou como Garrett, no início das Viagens na minha Terra:
“Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo —entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal. Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. “

No entanto, apesar de mais de meio século de diferença, tenho em comum com Maria Archer o facto de ambas termos iniciado a diáspora na infância. As minhas viagens tiveram início logo ao nascer, andei em diáspora fora de mim cá dentro, a viagem dela iniciou-se mais tarde, depois dos 10 anos, creio, mas foi geograficamente muito mais ampla, começou em África e mais tarde ampliou-se ao Brasil. Mantendo a unidade da língua com que pensou, sentiu, viveu e escreveu.

Intitulei esta reflexão como “… e hoje?”, mas também poderia chamar-lhe “os exílios”, sendo que este conceito é tão escorregadio como o de diáspora. Porque me parece que o verdadeiro exílio de Maria Archer aconteceu quando voltou para Portugal terminando seus dias num asilo. O asilo foi o exílio. No entanto, não sabemos que viagens esse asilo exílio não terá proporcionado dentro dela, quantos livros para sempre absolutamente inéditos não terá escrito, quantas novas paisagens não terá visitado antes de partir, finalmente, para a que me parece a maior das diásporas, mas não dos exílios.
Gostaria de conseguir fazer aqui em poucas palavras o que me foi sugerido: a ponte entre duas épocas, o início do século XX e o início do século XXI, quase um século depois, que diásporas, que exílios? Somos, aparentemente, de diferentes tempos, no entanto ainda respirámos o mesmo ar do planeta. Pouco depois de eu nascer ela parte para o Brasil e espanta-me que ninguém me tenha dito nada. Se uma fada me tivesse segredado ao ouvido, ainda no berço: “partiu para o Brasil Maria Archer”, que música teria permanecido em mim deste sopro misterioso, que alteração de rota poderia ter sofrido a minha vida? Que outras viagens? Mas pensando bem… não terá a fada segredado algo assim? De onde me teria vindo desde muito pequena a saudade do Brasil onde, aparentemente, nunca estive? Pergunto-me então: Que outra rota teria sido a minha se a fada não me tivesse segredado este segredo? Estaria hoje aqui?
Em 77, já doente, Maria  Archer é internada em S. Paulo e nasce o meu primeiro filho. Em 82 parte para a grande viagem, um dia depois de nascer o meu segundo filho. Ela já não estava cá quando do nascimento da minha terceira filha nem da partida do primeiro. Por essa altura eu andava ainda entretida a ter e a perder filhos. Ela tinha escrito muitos livros e inúmeros artigos.
À escrita dela, João Gaspar Simões atribuiu as características de “força e solidez”, o que poderia ser, se quiséssemos, o estereótipo da escrita de um homem. Mas não é. Acredito numa escrita masculina e numa escrita feminina, mas não acredito numa escrita de homens e numa escrita de mulheres. Tenho visto homens a escrever com tal sensibilidade, que nunca mais poderei garantir, perante uma página anónima, se foi escrita por um homem, se por uma mulher. Por sua vez, Maria Archer parte, muitas vezes, da temática feminina mas fá-lo ultrapassando todos os limites, de forma crítica e política. Com força e solidez. O que não implica ausência de sensibilidade e vulnerabilidade. Ampliou o universo das mulheres, da limitação que então era ainda, ser mulher, fez rampa de lançamento para uma ampla visão social e universal.
E hoje? O que é ser escritora hoje, depois de ter sobrevivido a tantas invisíveis diásporas? Escrevo livros como se pintasse quadros ou como se cozinhasse requintados pratos, ou como se dançasse com o Universo. Ser escritora hoje, é dizer: Estou viva, amo o Sol, sou visitada pela Lua e sou Terra.
A preocupação de Maria Archer com o feminino mantém-se hoje em nós. Com a diferença de que agora temos a consciência mais clara de que o feminino não são apenas as mulheres. O feminino é tudo o que é acolhedor e vulnerável no Universo. São as mulheres, as crianças, todos os seres frágeis e desprotegidos, os próprios homens na confusa busca acerca do seu novo papel no Universo e a natureza. O feminino é, afinal, a Terra, este planeta útero tão maltratado. Da compreensão da importância do feminino depende a nossa sobrevivência. Já não se trata de defender direitos de uma parte. Trata-se de sobrevivermos todos. Enquanto a Terra, essa primeira mulher, for violada, os bebés continuarão a nascer com dor e as mulheres sentirão as dores do planeta. Porque tudo é o mesmo. E não há política mais ou menos rasca que nos salve. No entanto, há sinais de esperança. O planeta começa a ser olhado como Mãe, o nascimento dos bebés a ser compreendido como o momento mais determinante para a vida de um ser, e talvez um dia, quando todos os seres secundarizados como as mulheres, as crianças, os animais, uma parte significativa dos homens e a natureza em geral, viverem com a dignidade que lhes cabe, talvez então os humanos possam realmente sê-lo e encontrar o seu V Império, ou o Espírito Santo, ou a  Graça, e ser felizes. Maria Archer deu o seu contributo, de acordo com a sua época, mais à frente do que a sua época. As escritoras hoje estão, creio, sinto-o nas minhas diásporas fora e dentro de mim, atentas ao tratamento dado a esta grande fêmea que é a Terra. Elas também em diáspora mais à frente que a sua época, para evitar a ameaça do grande de exílio, para que possa haver a próxima época e ainda muitas viagens e, porque não?, muitas diásporas.
Ser escritora hoje é migrar para além da Mulher, é abraçar todos os seres, acolher a Terra e todos os homens. Continua a ser, como para Maria Archer, passar para além dos limites, das fronteiras, das paredes, dos muros, das marcas, de todos os marcos e limitações e reaprender o que só a ilusão nos fez acreditar que deixáramos de ser: Inocentes e Unos. Todos. Sem exceção.

Risoleta C. Pinto Pedro
http://aluzdascasas.blogspot.pt

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